quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Bukowski, João do Rio e Steven Johnson

Bukowski

Até pouco tempo eu tinha uma opinião bem babaca que estou deixando de lado. Não lia romances. Achava perda de tempo, a vida real tem histórias muito mais loucas e interessantes que muita ficção, por isso sempre preferi biografias, livros de história, técnicos e jornalismo literário.

Mudei de opinião depois que comecei a ler Mulheres, de Bukowski. Apesar de afirmar que seus personagens não foram baseados em pessoas reais, o protagonista é o alterego do autor: alcóolotra, mulherengo, viciado em corridas de cavalo. Gostei, vou ler outros romances do maldito Velho Tarado.

João do Rio

Sempre ouvi falar do João do Rio mas nunca me interessei em ler algo dele, apesar da minha paixão pela história da cidade. João não é estudado pelos cursos de letras nem motivo para exposições, livros ou peças de teatro do mainstream, talvez por isso meu desinteresse.

Agradeço minha digníssima sogra que me presenteou com um livro que reune algumas de suas crônicas. João descreve a vida nas ruas no início do século XX, seus artistas, personagens, lugares, profissões, algo que tento fazer aqui no Ilhados.

Coincidentemente, uma das crônicas fala do hábito de flainar, assim como esta postagem que escrevi dias antes de ganhar o livro. Mas claro que meu parco talento não chega aos pés do João do Rio. Abaixo um trecho magnífico no qual descreve a flanagem:


Para compreender a psicologia da rua não basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor do sol e o lirismo do luar. É preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos flâneur e praticar o mais interessante dos esportes — a arte de flanar.


(…) Flanar! Aí está um verbo universal sem entrada nos dicionários, que não pertence a nenhuma língua! Que significa flanar? Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem.


Flanar é ir por aí, de manhã, de dia, à noite, meter-se nas rodas da populaça, admirar o menino da gaitinha ali à esquina, seguir com os garotos o lutador do Cassino vestido de turco, gozar nas praças os ajuntamentos defronte das lanternas mágicas, conversar com os cantores de modinha das alfurjas da Saúde, depois de ter ouvido dilettanti de casaca aplaudirem o maior tenor do Lírico numa ópera velha e má; é ver os bonecos pintados a giz nos muros das casas, após ter acompanhado um pintor afamado até a sua grande tela paga pelo Estado; é estar sem fazer nada e achar absolutamente necessário ir até um sítio lôbrego, para deixar de lá ir, levado pela primeira impressão, por um dito que faz sorrir, um perfil que interessa, um par jovem cujo riso de amor causa inveja.


É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas. Do alto de uma janela como Paul Adam, admira o caleidoscópio da vida no epítome delirante que é a rua; à porta do café, como Poe no Homem da Multidões, dedica-se ao exercício de adivinhar as profissões, as preocupações e até os crimes dos transeuntes.


É uma espécie de secreta à maneira de Sherlock Holmes, sem os inconvenientes dos secretas nacionais. Haveis de encontrá-lo numa bela noite numa noite muito feia. Não vos saberá dizer donde vem, que está a fazer, para onde vai. Pensareis decerto estar diante de um sujeito fatal? Coitado! O flâneur é o bonhomme possuidor de uma alma igualitária e risonha, falando aos notáveis e aos humildes com doçura, porque de ambos conhece a face misteriosa e cada vez mais se convence da inutilidade da cólera e da necessidade do perdão.


O flâneur é ingênuo quase sempre. Pára diante dos rolos, é o eterno “convidado do sereno” de todos os bailes, quer saber a história dos boleiros, admira-se simplesmente, e conhecendo cada rua, cada beco, cada viela, sabendo-lhe um pedaço da história, como se sabe a história dos amigos (quase sempre mal), acaba com a vaga idéia de que todo o espetáculo da cidade foi feito especialmente para seu gozo próprio. (…)


E de tanto ver que os outros quase não podem entrever, o flâneur reflete. As observaçõs foram guardadas na placa sensível do cérebro; as frases, os ditos, as cenas vibram-lhe no cortical. Quando o flâneur deduz, ei-lo a concluir uma lei magnífica por ser para seu uso exclusivo, ei-lo a psicologar, ei-lo a pintar os pensamentos, a fisionomia, a alma das ruas. E é então que haveis de pasmar da futilidade do mundo e da inconcebível futilidade dos pedestres da poesia de observação…

Gênio!

Steven Johnson

Livro que também recomendo é De onde vêm as boas idéias, de Steven Johnson, um dos atuais gurus da internet nos Estados Unidos. Entre outros assuntos, ele fala sobre como criar ambientes propícios para criação de idéias, além de hábitos que podemos adotar para nossa criatividade fluir melhor. O vídeo abaixo reune 7 dicas contidas no livro.



Esta é uma pequena amostra do que tenho lido ultimamente. E você, quais livros tem carregado na bolsa?



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