segunda-feira, 21 de março de 2016

Novo blog: Kasa de Orates


Quando criei o Ilhados, o objetivo era postar sobre botequins e a Ilha do Governador, mas há muito não escrevo sobre esses temas. Manter o blog com este nome e layout boiando na cerveja me incomodava, mas mantive por não saber o que fazer. Agora decidi: criei o Kasa de Orates, onde continuarei escrevendo crônicas e copiarei daqui o conteúdo que achar apropriado ao novo escopo.

O Ilhados vai continuar aqui do jeito que está, e será atualizado quando eu tiver algo sobre a Ilha para contar.

Então curtam a página no Facebook da Kasa de Orates ou assinem para receber as atualizações por email.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Fechamento do Restaurante Primeira Pá


Detesto ser o portador de mais uma triste notícia: o Restaurante Primeira Pá está no último mês de funcionamento.

Localizado na Associação Cultural Chinesa, Tijuca, é feito por e para a comunidade sino-brasileira do Rio. Mais uma vítima da especulação imobiliária.

Em abril não abrirá as portas. Espero que o dono ache um lugar com aluguel mais barato para não precisar fechar de vez. Enquanto o futuro é incerto, você ainda tem alguns dias para conhecer essa pérola da cidade.

Vou colocar a foto do peixe vivo que comi, tilápia criada num tanque no fundo da cozinha, para todos ficarem curiosos e irem lá experimentar. É cozido no vapor com gengibre e shoyo.

No cardápio vários pratos típicos chineses, com preparo tradicional para agradar principalmente os conterrâneos.

Preços justos e atendimento excelente. Talvez seja por isso que vai fechar, carioca não está acostumado com isso.

Peixe vivo. Tilápia criada num tanque aos fundos do restaurante preparada na hora no vapor com gengibre e shoyo. R$50.

Gyosa de porco com nirá. Porção com 10 por R$20

Chá de Jasmim. Jarra por R$8,00

quinta-feira, 17 de março de 2016

Vários caminhos que chegam ao mesmo lugar - Vegetarianismo 4

Por algum motivo, o ser humano sempre busca a coerência, agir conforme suas convicções éticas e morais. Entretanto, diariamente realizamos ações que não estão em harmonia com nossas crenças ou temos opiniões contraditórias ao mesmo tempo. Quando isso acontece, enfrentamos um desconforto psicológico chamado dissonância cognitiva. Um exemplo:

Você está de dieta e passa naquele maldito corredor das Lojas Americanas. Pega um chocolate e olha para ele babando. Dois pensamentos passam pela sua cabeça: 1) não posso comer, preciso perder peso e levar uma vida mais saudável; 2) só um chocolatinho não vai fazer mal nenhum, né?

Essa situação gera um incômodo e você precisa resolver a questão. Basicamente existem duas opções: manter firme suas convicções para emagrecer e não realizar a compra ou comer o doce e inventar justificativas que apoiem essa decisão.

Circunstâncias parecidas acontecem todo o tempo: quando damos um jeitinho para escapar de uma punição, mesmo quando acreditamos que qualquer tipo de corrupção é condenável (colar numa prova ou subornar um guarda), quando compramos um bem e depois percebemos que não valia a quantia paga, não querendo ir à academia ou ao término de um relacionamento amoroso.

É uma ocorrência natural, lidamos com isso o tempo todo e estamos sempre tentando reduzir o estresse que esses casos geram. Podem durar alguns poucos segundo ou anos.

Vegetarianismo como fator gerador de dissonância cognitiva

Há aproximadamente seis meses tenho feito uma experiência com meu corpo. Reduzi a ingestão de carne e comecei a pesquisar mais sobre os impactos do consumo da proteína animal no meio ambiente e na alimentação mundial.

A criação de gado emite mais gases do efeito estufa na atmosfera do que todos os meios de transportes juntos. Consome uma quantidade absurda de água, é responsável por boa parte do desmatamento de florestas e pelo genocídio de populações tradicionais. Existem vários motivos que levam pessoas a virarem vegetarianas, como questões ligadas à saúde, crueldade com animais ou religião, mas a questão ambiental foi a única que me motivou.

Assisti alguns documentários radicais que mostravam esses dados e pregavam a suspensão imediata do consumo de qualquer produto de origem animal como forma de preservar o planeta. Mas também ouvi opiniões de outras pessoas que me mostravam pontos de vista diversos.

Adoro comer e adoro carne, é um alimento saudável e apontado por diversos cientistas como responsável pelo surgimento do homo sapiens. É claro que com hormônios e aditivos não são recomendadas, assim como vegetais com agrotóxicos. 

Fiquei divido entre esses dois pensamentos antagônicos: não comer e ajudar na preservação do planeta ou continuar comendo e encontrar justificativas que não associassem o desmatamento e o efeito estufa à agropecuária.

Vários caminhos levam ao mesmo lugar

Será mesmo que a única forma de preservar o planeta é deixando de consumir produtos de origem animal? É impossível levar uma vida sustentável consumindo carne?

A resposta é não. É viável, sim, garantir um ambiente saudável sem abrir mão da proteína animal. Para isso é preciso mexer na base de produção capitalista, objetivo tão distante quanto tentar convencer todas as pessoas do mundo a virarem veganas.

O steak tartare do Bar Lagoa é um monumento à gastronomia carioca. Dizem que a carne é moída na faca (fonte da imagem)
Para isso, precisamos:

- Reduzir a população mundial: esse processo passa pelo planejamento familiar e legalização do aborto. O empoderamento das mulheres pode salvar o mundo;

- Consumir produtos da agricultura e pecuária local e familiar: o agronegócio é o grande inimigo. A produção em larga escala para exportação são os responsáveis pelo desmatamento. São as pequenas propriedades que produzem a maior parte dos alimentos;

- Maior controle dos transgênicos e patentes de seres vivos: além de pesquisas mais profundas sobre seus impactos na saúde e no ambiente, é importante não permitir a patente e controle das sementes como tem sido feito atualmente;

- Redução de consumo: não apenas de produtos animais, mas de todos os produtos. O consumismo atinge níveis estratosféricos, e a produção de coisas inúteis esgota os recursos naturais;

- Promover a geração de energia limpa e reduzir a dependência de petróleo e seus derivados;

- Além de outras ações, como prédios verdes, reciclagem, incentivo de fazendas urbanas, eficiência energética, redução do uso de pesticidas, cidades planejadas de forma a privilegiar o transporte ativo e o público e redução do desperdício.

Muita gente pode acreditar que inventei essas desculpas para poder comer carne sem peso na consciência. Talvez seja, mas esse processo me fez refletir bastante sobre como nos alimentamos e sobre nossa relação com a terra.

Achar que não comer animais é a única forma de salvar o planeta é uma visão reduzida do problema. Claro que os ativistas pelo veganismo também lutam nas causas sitadas acima, mas acredito que o desenvolvimento sustentável pode caminhar ao lado da agropecuária.

Acho que encerro aqui a série de textos sobre essa minha experiência alimentar. Continuarei não colocando bichos no prato nas minhas escolhas individuais, mas num bar com amigos comerei a mesma comida que todos, já que não existe comunhão maior entre seres humanos do que dividir o alimento e a mesa.

Outros textos sobre minha tentativa vegetariana:

1- Vegetarianismo

sábado, 20 de fevereiro de 2016

É impossível ser vegetariano sem ser chato - Vegetarianismo 3

Ir à casa de casa de alguém e recusar a comida oferecida pelo anfitrião é ofensivo em qualquer cultura, ainda mais quando o prato foi feito especialmente para a ocasião. No momento em que resolvi testar parar de comer carne, uma das minhas premissas era não virar um vegetariano chato, mas já vi que é impossível.

Partindo deste princípio (não ser chato), acabei aceitando carne, mas esta exceção resolvi não fazer mais. Terei que ser desagradável, mas tenho certeza que as pessoas que me recebem entenderão.

Mudar de hábito é um aprendizado, me deparo com situações novas todos os dias e assim vou fortalecendo minha decisão e aprendendo a me comportar quando essas circunstâncias se repetirem. Um exemplo: recentemente fui a dois dos meus restaurantes preferidos, ambos braseiros.

Os pães de alho do Sat's são incríveis

No Sat's, em Copacabana, foi muito tranquilo ficar longe dos corações de frango e da picanha. As batatas portuguesas, os pães de alho e a cebola estavam incríveis. Já no Galitos Grill, Ipanema, as opções vegetarianas não eram saborosas. Ver minhas acompanhantes lamberem os dedos no arroz à malandro (com miúdos galináceos) e no galeto picante mexeu comigo e acabei abocanhando uma coxinha. Agora sei que alguns restaurantes posso ir com tranquilidade, em outros vou precisar adotar uma estratégia que ainda não sei qual. 

Deixar de frequentar esses lugares ainda não é uma opção, construí meu relacionamento com minha namorada em mesas de bares e restaurantes nos digladiando com carcaças assadas, fritas e cozidas de animais mortos, e não seria justo fazer com que ela abra mão desses prazeres por causa de uma decisão minha. Sim, comer carne é um prazer, mas acredito que ser adulto é também saber recusar alguns prazeres.

Não acho que matar animais para comer seja errado. O leão come a zebra e assim é a natureza. Claro que é necessário respeitar alguns limites éticos neste processo, o confinamento é de uma crueldade absurda, mas não vejo nada demais em nos alimentar de bichos criados soltos com uma alimentação natural. Também não acho que faça mal à saúde, muito pelo contrário, é um alimento extremamente saudável e que teve uma importância fundamental na evolução do ser humano.

Minha questão (como já contei aqui) é ambiental, tem a ver com a devastação de florestas para criação de gado e genocídio de populações tradicionais pelo agronegócio. Por isso, dos três principais motivos que levam as pessoas a adotar uma dieta vegetariana (crueldade com animais, saúde e meio ambiente), eu acredito em apenas um, o que faz com que essa minha decisão se torne mais difícil de ser adotada por completo. Olhar aquela picanha e não tocar nela não é uma tarefa fácil, mas cada dia é um dia e pretendo ir narrando minha experiência por aqui.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

O penúltimo lugar da União da Ilha

Em 2014, a Vila Isabel entrou na Sapucaí com alegorias, adereços e fantasias inacabadas. Mesmo assim recebeu altas notas nestes quesitos, 10 inclusive (fonte). Desde então não acredito na apuração, assim como não acredito nos resultados esportivos. Mesmo assim, todo ano acabo parando num botequim para assistir, torcer e sofrer pela União da Ilha, agremiação na qual desfilo há alguns anos.

Esse carnaval foi especialmente sofrido. Em última colocação até o meio da apuração, a Ilha conseguiu sair da lanterna e coube à Estácio o rebaixamento. Apesar de ter sido um dos desfiles mais intensos, bonitos e concorridos dos últimos tempo, a agremiação insulana estava incrível e não merecia essa agonia toda.

A ordem dos desfiles influencia na nota dos jurados. É semelhante a um professor que está começando a corrigir uma pilha de provas, sendo mais rigoroso nas primeiras avaliações. Por isso o presidente da escola, Ney Filardi, foi duramente criticado ao trocar a posição da apresentação.

Por sorteio, a União encerraria o desfile de domingo, mas cambiou com a Tijuca e passou a ser a segunda a atravessar a Sapucaí. Historicamente, as primeiras a desfilar recebem as piores notas, e foi exatamente isso que aconteceu. Estácio e Ilha, as duas primeiras, ficaram respectivamente em último e penúltimo lugares.

A justificativa do presidente foi que não queria sacrificar os componentes, fazendo-os desfilar de madrugada (fonte). Na época entendi e defendi a posição do Ney, eu mesmo talvez não desfilasse, assim como muitos amigos não o fariam. Entretanto, nenhum cansaço decorrente de uma apresentação tarde da noite é mais sofrida do que ficar metade da apuração na zona de rebaixamento.

Mas Ney conhece seu povo. De fato haveria deserções dos componentes que poderiam afetar o desfile. A Ilha, apesar de possuir muitos amantes incontroláveis, está longe de ser a agremiação que já foi um dia. Está longe de ter membros aguerridos como a Beija-Flor. Está longe se ser amada pela comunidade insulana como Nilópolis e a Mangueira são amadas pelas pessoas que moram no entorno de suas quadras. E por quê?


Teço aqui algumas considerações dos motivos pelos quais acredito que a União está tão distante da comunidade:

1) Madrinha da Bateria que ninguém conhece, ninguém nunca viu. Perguntei para algumas pessoas como se faz para ocupar esse cargo e todas as respostas variavam entre "ela pagou" ou questões de natureza sexual/romântica/afetiva. De concreto nisso, os critérios de escolha não são claros;

2) A escolha do samba enredo também é obscura. Nem sempre o vencedor é o preferido pelo público que acompanha a competição. Mais uma vez, a politicagem é apontada como principal critério seletivo;

3) A direção da escola também toma decisões unilaterais, sem consultar a comunidade. Um exemplo foi a extinção da ala das crianças, que desapontou muita gente e enfraqueceu a criação de vínculo com os pequenos, comprometendo ainda mais o futuro da agremiação.

Em suma, a falta de participação popular no dia a dia da escola afasta a comunidade, tornando-a fraca e fazendo com que soframos toda quarta-feira de cinzas. A direção precisa ouvir mais aqueles que de fato constroem a União da Ilha, só assim estaremos preparados para lutar pelo título. Mas também há quem acredite é melhor assim, podem acabar descobrindo coisas demais.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Comendo eu encontro deus

Uma das melhores coisas que fica depois do término de um relacionamento é o conhecimento gastronômico. Todo contato com o outro é enriquecedor, conhecemos novas músicas, novos livros, filmes, passamos a enxergar o mundo de um jeito um pouco diferente, mas são os novos sabores, pratos e temperos que mais aprecio nesse intercâmbio cultural.

Com uma namorada aprendi a gostar de salada, me apaixonei pelas feiras de rua e comi peixe cru. Com outra me encantei pela batata baroa, milho refogado com alho e cebola, sopa de fubá com um ovo cru que cozinha lentamente apenas com o calor daquele incrível caldo amarelo num cachepo. E o molho caseiro feito com tomates italianos quase estragados e temperado com folhas frescas de manjericão recém colhidas? Sou outra pessoa depois disso.

Fui levado, de mãos dadas, para comer aquele PF incrível na Travessa do Ouvidor. E o bolo com café de Ipanema, depois do galeto apimentado? E o divino e dourado líquido que sai da chopeira mais incrível que já vi, coberta com uma montanha de gelo que me deixou com olhos arregalados, tal qual uma criança em frente do seu grande ídolo?


A comida vai me transformando diariamente, e atualmente presto muita atenção a tudo que coloco na boca. Dedico bastante tempo preparando, comprando, pesquisando. Comer também é um ato político, quero que meu dinheiro vá para pequenos produtores familiares e não para multinacionais que vendem veneno disfarçado. Quero me alimentar de produtos sustentáveis e que não agridam o meio ambiente. Quero meu corpo saudável, pois assim diminuo minha necessidade de remédios.

Ateu, que não acredita em signos, premonições, no céu ou no inferno, a comida para mim se aproxima de uma religião, já que é através dela que me relaciono comigo mesmo, com o planeta e com outros seres humanos. É minha conexão com o universo, comendo eu encontro deus.

Faz-se necessária a mudança. Precisamos repensar a forma como comemos, saber de onde vem a comida e como é produzida. Felizmente um pequeno movimento vem surgindo neste sentido. A indústria já percebeu que tem gente substituindo o pacote cheio de sódio e gordura por alimentos frescos. Também cresce a pressão contra os fast foods e governos estão adotando medidas para proteger seus cidadãos. A obesidade se tornou um problema crônico em muitos países e a reação já começou.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Abro mão do meu direito a carne (Vegetarianismo - 2)

Toda minha ascendência é nordestina. Meus pais são paraibanos, assim como quase todos antes de mim. O sertanejo é, antes de tudo, um forte, e apesar de hoje desfrutar de uma vida confortável, nunca esquecerei os que foram deixados para trás nas estradas depois de cair de inanição. Mesmo que eu não saiba seus nomes, mesmo que nunca tenha visto seus rostos, carrego comigo toda a história do povo pobre nordestino e esta história é repleta de tristeza e injustiças sociais.

Vítimas da seca. Crianças e adultos jazem ao lado da linha férrea que levava para o campo de concentração de Senador Pompeu (fonte)
Já chorei ao ler relatos das secas nos jornais de décadas passadas, de uma época em que a fotografia era um raro recurso e cronistas enchiam seus textos com detalhes sobre o sofrimento de pessoas que aos farrapos, trajando nada além de trapos, abandonavam suas terras em direção a capital, incomodando com seu cheiro e sua presença as famílias de coronéis e políticos que gozavam de fartura em suas mesas. Foram criados campos de concentração para que essa gente morresse longo dos olhos de seus senhores.

Notícia sobre o Campo de Concentração dos Flagelados, publicada no Jornal O POVO, em 16/04/1932 (fonte)
Ter cintura larga era sinônimo de abundância ostentada apenas pelos coronéis. Hoje, com acesso sem restrição aos alimentos, toda mãe nordestina só fica feliz quando seus filhos terminam de comer a meia tonelada de almoço que ela prepara. Ter comida a vontade no prato é algo novo aos meus, coisa de duas gerações.

Recentemente, a partir da década de 90, milhões de pessoas chegaram à classe média e com isso puderam abastecer suas geladeiras de um jeito que nunca antes foi possível. Já nasci nesta condição social, início dos 80. Além da mesa farta, poder comer carne todos os dias é um dos símbolos mais fortes desta acensão, desta vitória que, infelizmente, muitos não puderam compartilhar. Acredito fazer parte da primeira geração da minha família a contar com proteína animal diariamente nas refeições.

Para esta mudança, o Brasil precisou se adaptar e utilizar novas formas de produção alimentar. Prover carne para todo mundo não é uma atividade fácil e requer muito espaço. Sem me alongar, a Amazônia está sendo derrubada e povos tradicionais estão sendo assassinados para abertura de pastos e plantação da soja utilizada, entre outras coisas, para produção de ração. Sem falar na poluição atmosférica, do solo e da água.

São fartas as notícias do massacre que está dizimando os Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul a mando do agronegócio. Na minha opinião, a pecuária consegue ser pior que o tráfico de drogas que coloca um fuzil na mão de uma criança. Diversos países estão apresentando bons resultados legalizando alguns entorpecentes, o Uruguai reduziu para zero o número de mortos em consequência do tráfico, mas ainda não paramos para enfrentar o problema que é o gado e a soja.

Diante desta realidade, abri mão do meu privilégio de comer carne. A criação de animais para consumo humano não é uma atividade sustentável em nenhum nível. Para conseguir um quilo de carne de pato criado no quintal de casa são utilizados 50 quilos de grãos. 

Acredito que a grande questão é: como conciliar o legítimo direito das pessoas que conseguiram acender a churrasqueira pela primeira vez agora com um meio ambiente equilibrado? Não há resposta. É muita crueldade tentar tirar o bife do garfo daqueles que sempre estiveram em situação de insegurança alimentar.

Estou aprendendo a viver deste novo jeito e é um aprendizado que envolve muitas pessoas além de mim. Minha companheira, meus amigos e minha família também estão entendendo a forma de lidar com esse novo eu. Não sei como vai ser, mas vou tentando.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Vegetarianismo - 1


O Ilhados foi criado para abrigar as resenhas e fotos dos botequins insulanos. Tipo um guia de onde entupir as artérias e conseguir um infarto da forma mais saborosa possível. Felizmente a Ilha é uma terra abençoada, com diversos estabelecimentos prontos para nos colocar em contato com deus antes dos 40, se frequentados com a mesma assiduidade com que as carolas frequentam as igrejas.


Entre bois, porcos e galinhas, devo ter consumido uma fazenda inteira. Incontáveis costelas, galetos, rabadas, feijoadas, filés, linguiças, bacon e demais derivados animais capazes de deixar um viking com inveja. Mas, de uma forma muito esquisita e de um jeito como ainda não sei explicar, estou deixando isso para trás. Tenho escasseado o consumo de bichos e a cada dia que passa aumenta minha convicção a abandonar de vez a alimentação carnívora.

O motivo principal não é minha saúde nem a crueldade com os animais, mas a destruição do planeta. Mais da metade da emissão dos gases responsável pelo efeito estufa são produzidos em decorrência da criação animal, enquanto todos os meios de transporte juntos, incluindo aviões, correspondem a 13% do total. Estamos, quase que literalmente, comendo o planeta. Destruindo a Amazônia, poluindo a terra, acabando com a água. Recentes massacres contra indígenas estão acontecendo no Mato Grosso do Sul com o objetivo de expulsar populações tradicionais de seus territórios para abertura de pastos e plantação de soja, utilizada, entre outras coisas, como ração.

Não acho exagero dizer que comer carne é contribuir com a morte de índios nos rincões deste país, por isso me despedi de alguns pratos nas últimas semanas. Cabrito na Cadeg, arroz malandro com galeto picante no Galito's Grill, feijoada no botequim da esquina do trabalho, churrasco na chapa. Comi e tive certeza que não vou sentir falta, que vou conseguir passar muito e bem e feliz sem bichos mortos.

Um ponto crucial para essa minha mudança foi o documentário Cowspiracy. Abaixo é possível assistir completo e com legenda.


Comer carne não é uma atividade sustentável, em nenhuma situação, e meu desafio vai ser virar vegetariano sem virar um chato. Não sei se de fato vou conseguir, mas vez por outra passarei aqui para contar como está sendo.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Planejamento urbano contra o ódio

Outro dia, pedalando, um taxista jogou o carro em cima da minha namorada. Depois fez a mesma coisa comigo. Gratuitamente, o trânsito estava fluindo e estávamos no canto da pista. Ele acredita que fazendo isso vai nos desestimular a andar de bicicleta pela cidade.

Poucos dias antes um amigo me ligou para relatar um fato parecido. Depois de ter sido vítima de agressões verbais de um grupo de motoristas que protestava contra a ciclovia de Laranjeiras e Cosme Velho, um taxista emparelhou ao lado dele, desceu o vidro e começou a xingá-lo.

O aumento do ódio no Rio é visível. Além das questões relacionadas ao trânsito, com homicídios motivados por banalidades, vemos justiçamentos, bandidos e inocentes espancados até a morte pela população que não acredita mais no Estado, uma polarização entre esquerda e direita que tem manifestado situações de confronto e violência. Haters destilando intolerância na internet, racismo, homofobia, transfobia e machismo. Isso sem falar nas miudezas do dia a dia, quando não damos mais bom dia uns aos outros e no péssimo atendimento que recebemos quando vamos contratar algum serviço.

Tive dois conhecidos que foram brutalmente assassinados e seus corpos jogados em rios unicamente por serem gays. O que está acontecendo? Parece que o Rio está descontrolado e sempre converso com amigos tentando descobrir o que tem motivado essa escalada do ódio nos últimos tempos.

Minha visão é a seguinte: acredito que a cidade está sendo organizada de forma a estimular o comportamento agressivo de seus habitantes.

O vídeo abaixo, da Superinteressante, resume bem o que quero dizer. Mostra como em um espaço de 70 anos a Alemanha passou do país mais odiado do mundo, por causa do nazismo, para o mais admirado, enquanto Israel, criado para abrigar as vítimas do holocausto e em nome da justiça e da liberdade, atualmente figura entre as nações que mais influenciam negativamente o mundo, ao lado de ditaduras fundamentalistas.


O bem e o mal existem ao mesmo tempo dentro de nós, e um dos fatores que determina qual dessas duas características vai se manifestar com mais intensidade é o ambiente no qual vivemos. Se vamos tratar os outros com respeito e tolerância ou com ódio e violência. Os alemães, ao criar uma sociedade igualitária, tolerante e desmilitarizada, criaram o meio necessário para hoje encabeçarem a lista dos países considerados com a maior influência positiva no mundo.

Infelizmente o ambiente do Rio de Janeiro é um meio que estimula a intolerância. Por isso me considero um ativista do espaço público, o objetivo da minha militância é contribuir para a criação de um espaço propício para que o bem se manifeste nas pessoas.

Menos muros

Um exemplo que gosto de dar é comparar o comportamento do muçulmano e do judeu aqui no Rio e no Oriente Médio. Atualmente os chineses estão dominando a Saara, região de comércio popular no Centro do Rio, mas foram os árabes e israelitas os pioneiros na área e que abriram as primeiras lojas. Ambos convivem pacificamente por aqui (fonte), mas em Gaza e Israel eles estão literalmente se matando. E o motivo é o muro.

Separar fisicamente dois grupos sociais faz com que ambos se vejam como inimigos. Faz com que eles sejam incapazes de demostra empatia pelos que estão do outro lado e favorece o processo de desumanização, e quando não enxergamos um ser humano no próximo somos capazes de cometer atos atrozes, como xingá-lo pelo simples motivo dele usar um meio de transporte diferente ou espancá-lo até a morte por causa da orientação sexual.

Por isso minha atuação pela proteção e aumento dos espaços públicos no qual as pessoas convivam sem muros. Fortalecer as áreas de convivência na cidade é estimular a empatia e diminuir o ódio. Precisamos de espaços como praças e parques no qual árabes convivam com judeus, gays com heterossexuais, evangélicos com espíritas, afrodescendentes com caucasianos,  ricos e pobres. Desta forma, ressaltaremos o que nos torna iguais e aprenderemos a respeitar e conviver nossas diferenças.

O planejamento do Rio estimula a violência

O Rio de Janeiro está sendo planejado de forma a favorecer o lucro de empreiteiros e empresas de ônibus. A população e o meio ambiente não são prioridade. Alguns exemplos:
  • Desapropriações violentas e sem indenização de comunidades pobres para criação de megaempreendimentos imobiliários;
  • Repressão ao trabalho dos camelôs, obrigando essas pessoas a viverem à margem e colocando-as em situação de vulnerabilidade;
  • O não investimento em metrôs e barcas, favorecendo empresas de ônibus que são grandes financiadoras de campanhas eleitorais;
  • Eliminação de espaços públicos, como praças, parques e áreas de proteção ambiental, como a reserva de Marapendi, para construção de condomínios;
Inscrição em parede na Vila Autódromo, comunidade removida pela prefeitura

A gente é tão vilipendiado todos os dias que é fácil perder o controle e destruir uma loja quando não conseguimos cancelar um serviço. Ficamos 4 horas presos todos os dias no trânsito que temos vontade de matar aquele que acreditamos estar atrapalhando o fluxo dos veículos. Proibição do trabalho dos camelôs e remoções criam um horda de insatisfeitos que perdem totalmente a crença no Estado. A destruição do espaço público faz com que deixemos de saber como conviver com o diferente, estimulando a violência.

Outro aspecto contribui com esse quadro é a proliferação de condomínios fechados, cujos muros funcionam da mesma forma como os que separam Gaza de Israel. Segundo o planejador urbano Rico Benjamim, 
(...) condomínios fechados criam um ciclo vicioso porque atraem moradores com um mesmo perfil que procuram abrigo do mundo exterior e cujo isolamento físico, então, piora a paranóia coletiva contra estranhos.
O psicanalista Christian Dunker também toca no assunto, ressaltando que o Estado se exime da responsabilidade em organizar o espaço público e entrega essa função para a iniciativa privada, fazendo com que seus habitantes não saibam lidar com a diversidade e ficando vulneráveis ao abuso de drogas, à agressividade e à violência, além do tédio, apatia e excesso de relação com o trabalho. Acho fundamental a leitura da entrevista que ele deu para o site Outras Palavras.

A bolha criada pela internet 

Claro estes não são os únicos motivos para o crescente do ódio. Tem muita gente pesquisando o assunto. Minha namorada, que é antropóloga, tem uma teoria muito interessante que relaciona a bolha na qual as redes sociais nos coloca com essa intolerância. Esse artigo de Ana Paula Assis, também publicado no site Outras Palavras, relaciona o Facebook aos subúrbios estadunidenses e aos condomínios brasileiros.

A saída é a rua

A vida em comunidade está sendo dilapidada e as consequências são graves, como tentei expor aqui. Cabe a nós reverter essa situação. Por isso encerro com as palavras de Dunker citado acima:
Obviamente, a asfixia e o empobrecimento de uma vida condominial são percebidos pelas gerações mais jovens. Eles olham pra isso e falam “é isso que eu tenho que sonhar? Ter um carrinho parado numa graminha e o vizinho enchendo a paciência? É muito pouco”. Onde é a saída? É o mundo, a rua.
Ocupemos as ruas! Protejamos as praças e parques. Utilizemos nossas bicicletas como ferramentas de contato com o outro.

O papel de ativistas que lutam para reverter esse processo é importante, mas precisamos também de um dos nossos no executivo. Por isso me filiei recentemente ao PSOL. Eleger Marcelo Freixo prefeito desta cidade se faz urgente.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Retirem a Concessão da Paranapuan

Quem frequenta a Ilha do Governador sabe o quanto é ruim o serviço prestado pela Paranapuan. Ônibus velhos, sem licença e condições de circulação e que demoram uma eternidade para passar.

Por isso vamos assinar e divulgar essa petição solicitando a retirada da concessão desta empresa:




Há décadas, a população da Ilha do Governador vem sofrendo com a péssima prestação de serviços de transporte rodoviário da Viação Paranapuan.
Ônibus em péssimo estado de conservação, bancos e janelas soltas, faróis queimados, pneus carecas, longo tempo de espera por parte dos passageiros, canibalização das composições e acidentes constantes.
Em 2013, um gravíssimo acidente na ponte de saída da Ilha foi provocado por um motorista da empresa, que brigou com um passageiro e o coletivo despencou da ponte na avenida Brasil, matando 7 passageiros.
Em março deste ano, outro motorista da empresa, atropelou e matou um fiscal da CET-Rio, que fazia a ocorrência de um acidente que envolvia exatamente o coletivo da Paranapuan e um carro particular, quando o funcionário da mesma, irritado com o flagrante, subiu e arrancou com o ônibus, atropelando e matando o fiscal no cumprimento de seu dever.
Finalmente na última segunda-feira, 13/07, uma roda de um dos ônibus se soltou e atingiu um comerciante em São Cristóvão. A vítima, de 64 anos de idade, teve múltiplas fraturas, foi internado em estado grave, e veio a óbito na última sexta-feira.
Nós que vivemos na região, não sabemos mais a quem recorrer, depois de tantas e tão graves ocorrências e a falta de atitude do poder público, que limita-se a advertir e multar, mas não autoriza a entrada de uma nova empresa na região, capaz de suprir a carência e prestar um serviço minimamente aceitável à população.

Na última semana, fiscais do Procon estiveram na garagem da companhia e lacraram 26 dos 35 ônibus que lá estavam. Porém, esta redução é ainda mais grave e pune a própria população do bairro, pois se com a frota completa o transporte já é precário, sem várias das composições a carência só aumenta.
Em janeiro, um aumento absurdo foi concedido pela prefeitura, forçando o passageiro a pagar 3,40 para andar numa carroça como essa, que além de desconfortável deixa o usuário em pânico só de subir. Queremos uma solução definitiva para o problema!