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quinta-feira, 30 de julho de 2015

Planejamento urbano contra o ódio

Outro dia, pedalando, um taxista jogou o carro em cima da minha namorada. Depois fez a mesma coisa comigo. Gratuitamente, o trânsito estava fluindo e estávamos no canto da pista. Ele acredita que fazendo isso vai nos desestimular a andar de bicicleta pela cidade.

Poucos dias antes um amigo me ligou para relatar um fato parecido. Depois de ter sido vítima de agressões verbais de um grupo de motoristas que protestava contra a ciclovia de Laranjeiras e Cosme Velho, um taxista emparelhou ao lado dele, desceu o vidro e começou a xingá-lo.

O aumento do ódio no Rio é visível. Além das questões relacionadas ao trânsito, com homicídios motivados por banalidades, vemos justiçamentos, bandidos e inocentes espancados até a morte pela população que não acredita mais no Estado, uma polarização entre esquerda e direita que tem manifestado situações de confronto e violência. Haters destilando intolerância na internet, racismo, homofobia, transfobia e machismo. Isso sem falar nas miudezas do dia a dia, quando não damos mais bom dia uns aos outros e no péssimo atendimento que recebemos quando vamos contratar algum serviço.

Tive dois conhecidos que foram brutalmente assassinados e seus corpos jogados em rios unicamente por serem gays. O que está acontecendo? Parece que o Rio está descontrolado e sempre converso com amigos tentando descobrir o que tem motivado essa escalada do ódio nos últimos tempos.

Minha visão é a seguinte: acredito que a cidade está sendo organizada de forma a estimular o comportamento agressivo de seus habitantes.

O vídeo abaixo, da Superinteressante, resume bem o que quero dizer. Mostra como em um espaço de 70 anos a Alemanha passou do país mais odiado do mundo, por causa do nazismo, para o mais admirado, enquanto Israel, criado para abrigar as vítimas do holocausto e em nome da justiça e da liberdade, atualmente figura entre as nações que mais influenciam negativamente o mundo, ao lado de ditaduras fundamentalistas.


O bem e o mal existem ao mesmo tempo dentro de nós, e um dos fatores que determina qual dessas duas características vai se manifestar com mais intensidade é o ambiente no qual vivemos. Se vamos tratar os outros com respeito e tolerância ou com ódio e violência. Os alemães, ao criar uma sociedade igualitária, tolerante e desmilitarizada, criaram o meio necessário para hoje encabeçarem a lista dos países considerados com a maior influência positiva no mundo.

Infelizmente o ambiente do Rio de Janeiro é um meio que estimula a intolerância. Por isso me considero um ativista do espaço público, o objetivo da minha militância é contribuir para a criação de um espaço propício para que o bem se manifeste nas pessoas.

Menos muros

Um exemplo que gosto de dar é comparar o comportamento do muçulmano e do judeu aqui no Rio e no Oriente Médio. Atualmente os chineses estão dominando a Saara, região de comércio popular no Centro do Rio, mas foram os árabes e israelitas os pioneiros na área e que abriram as primeiras lojas. Ambos convivem pacificamente por aqui (fonte), mas em Gaza e Israel eles estão literalmente se matando. E o motivo é o muro.

Separar fisicamente dois grupos sociais faz com que ambos se vejam como inimigos. Faz com que eles sejam incapazes de demostra empatia pelos que estão do outro lado e favorece o processo de desumanização, e quando não enxergamos um ser humano no próximo somos capazes de cometer atos atrozes, como xingá-lo pelo simples motivo dele usar um meio de transporte diferente ou espancá-lo até a morte por causa da orientação sexual.

Por isso minha atuação pela proteção e aumento dos espaços públicos no qual as pessoas convivam sem muros. Fortalecer as áreas de convivência na cidade é estimular a empatia e diminuir o ódio. Precisamos de espaços como praças e parques no qual árabes convivam com judeus, gays com heterossexuais, evangélicos com espíritas, afrodescendentes com caucasianos,  ricos e pobres. Desta forma, ressaltaremos o que nos torna iguais e aprenderemos a respeitar e conviver nossas diferenças.

O planejamento do Rio estimula a violência

O Rio de Janeiro está sendo planejado de forma a favorecer o lucro de empreiteiros e empresas de ônibus. A população e o meio ambiente não são prioridade. Alguns exemplos:
  • Desapropriações violentas e sem indenização de comunidades pobres para criação de megaempreendimentos imobiliários;
  • Repressão ao trabalho dos camelôs, obrigando essas pessoas a viverem à margem e colocando-as em situação de vulnerabilidade;
  • O não investimento em metrôs e barcas, favorecendo empresas de ônibus que são grandes financiadoras de campanhas eleitorais;
  • Eliminação de espaços públicos, como praças, parques e áreas de proteção ambiental, como a reserva de Marapendi, para construção de condomínios;
Inscrição em parede na Vila Autódromo, comunidade removida pela prefeitura

A gente é tão vilipendiado todos os dias que é fácil perder o controle e destruir uma loja quando não conseguimos cancelar um serviço. Ficamos 4 horas presos todos os dias no trânsito que temos vontade de matar aquele que acreditamos estar atrapalhando o fluxo dos veículos. Proibição do trabalho dos camelôs e remoções criam um horda de insatisfeitos que perdem totalmente a crença no Estado. A destruição do espaço público faz com que deixemos de saber como conviver com o diferente, estimulando a violência.

Outro aspecto contribui com esse quadro é a proliferação de condomínios fechados, cujos muros funcionam da mesma forma como os que separam Gaza de Israel. Segundo o planejador urbano Rico Benjamim, 
(...) condomínios fechados criam um ciclo vicioso porque atraem moradores com um mesmo perfil que procuram abrigo do mundo exterior e cujo isolamento físico, então, piora a paranóia coletiva contra estranhos.
O psicanalista Christian Dunker também toca no assunto, ressaltando que o Estado se exime da responsabilidade em organizar o espaço público e entrega essa função para a iniciativa privada, fazendo com que seus habitantes não saibam lidar com a diversidade e ficando vulneráveis ao abuso de drogas, à agressividade e à violência, além do tédio, apatia e excesso de relação com o trabalho. Acho fundamental a leitura da entrevista que ele deu para o site Outras Palavras.

A bolha criada pela internet 

Claro estes não são os únicos motivos para o crescente do ódio. Tem muita gente pesquisando o assunto. Minha namorada, que é antropóloga, tem uma teoria muito interessante que relaciona a bolha na qual as redes sociais nos coloca com essa intolerância. Esse artigo de Ana Paula Assis, também publicado no site Outras Palavras, relaciona o Facebook aos subúrbios estadunidenses e aos condomínios brasileiros.

A saída é a rua

A vida em comunidade está sendo dilapidada e as consequências são graves, como tentei expor aqui. Cabe a nós reverter essa situação. Por isso encerro com as palavras de Dunker citado acima:
Obviamente, a asfixia e o empobrecimento de uma vida condominial são percebidos pelas gerações mais jovens. Eles olham pra isso e falam “é isso que eu tenho que sonhar? Ter um carrinho parado numa graminha e o vizinho enchendo a paciência? É muito pouco”. Onde é a saída? É o mundo, a rua.
Ocupemos as ruas! Protejamos as praças e parques. Utilizemos nossas bicicletas como ferramentas de contato com o outro.

O papel de ativistas que lutam para reverter esse processo é importante, mas precisamos também de um dos nossos no executivo. Por isso me filiei recentemente ao PSOL. Eleger Marcelo Freixo prefeito desta cidade se faz urgente.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Como você prefere?

Pedalando com Haddad
Olhando tudo aquilo, uma única pergunta permaneceu na minha cabeça: como alguém consegue ser contra?

A Paulista virou um parque. Lotada, de ponta a ponta, de bicicletas, pedestres, cachorros, crianças, artistas, música e sorrisos. As lágrimas não eram de tristeza por conta de mais uma morte no trânsito, eram de felicidade por ver um sonho se tornando realidade. O vermelho no chão não era do sangue de mais um ciclista atropelado, mas da pista da ciclovia que veio depois de muita luta para trazer mais segurança e humanidade à avenida.

Ao contrário do que a imprensa anunciou, a Paulista não foi fechada. Ela foi aberta, escancarada para as pessoas. Ainda estava cheia às cinco da tarde, quando foi novamente fechada e inundada por carros, trazendo de volta o barulho e a fumaça.

Todos os argumentos daqueles que acham a ideia um absurdo foram desfeitos. O trânsito dos veículos motorizados fluiu bem pelas outras vias e o comércio na região talvez nunca tenha faturado tanto. Com muita gente, filas nas lanchonetes e restaurantes.

Agradeço aqui todos os loucos que toparam alugar um ônibus e partir para São Paulo pedalar ao lado do Haddad, prefeito que está colocando São Paulo na vanguarda brasileira quando se fala em planejamento urbano. Num futuro, quando estivermos estudando a retomada das cidades para as pessoas, o dia 28 de junho estará lá.

De todas as fotos, para mim a mais significativa foi essa. Com vocês, a Rua Augusta. Então, como você prefere?

Como você prefere a Rua Augusta?

segunda-feira, 9 de março de 2015

A bicicleta como ferramenta contra o ódio

A rua é um lugar perigoso, um mal necessário para chegarmos, dentro de nossos carros, a locais protegidos e com segurança particular, como os shoppings. Só mendigos e bandidos gostam das ruas. Nós, cidadãos de bem, temos que ficar longe delas. Acabem com as praças, esses antros de vagabundos, e construam condomínios no lugar delas.
Infelizmente esse discurso tem crescido entre boa parte da população. Hoje não vou analisar o por quê desse incremento, mas sim o motivo pelo qual devemos lutar contra ele e voltar nos apropriar dos espaços públicos.

Fronteiras armadas
Os malefícios da segregação

Segregar fisicamente as pessoas tem consequência terríveis. Por que no Oriente Médio palestinos e israelitas estão em guerra? Porque existe um muro separando os dois. O mesmo acontece nas Coréias e no Aparthaid. Aqui na Saara árabes e judeus convivem pacificamente com suas lojas uma ao lado da outra. Já que ambos comungam do mesmo espaço, é possível perceber que não são tão diferentes. 

Trazendo isso mais para mais perto nossa realidade, para o microcosmo diário, os condomínios fechados com seus muros funcionam como em Gaza. Juntam pessoas com um mesmo perfil social, com mesma visão de mundo, e a falta de contato com o diferente é um ambiente propício para o surgimento do ódio.

Esse comportamento já vem sendo observado há tempos. Urbanistas recentes, comprometidos com a criação de cidades não violentas e felizes, estão colocando em pauta novas formas de planejamento, nas quais o convívio nos espaços públicos é estimulado como forma de diminuir a intolerância. Rico Benjamim diz que
Condomínios fechados criam um ciclo vicioso porque atraem moradores com um mesmo perfil que procuram abrigo do mundo exterior e cujo isolamento físico, então, piora a paranóia coletiva contra estranhos.
Já para Jeff Risom
Conviver com quem é diferente nos ensina a ser mais tolerantes, e essa é uma premissa importante para melhorar a qualidade de vida nas cidades.
Prefeitura arranca bancos na Lapa. A destruição do mobiliário público que incentiva o convívio e a permanência na rua está sendo destruído (fonte).

Lembro certa vez de uma reportagem na televisão sobre um BBB que tinha acabado de sair da casa com o maior índice de rejeição já registrado. Ao ser entrevistada na rua, uma senhora destilou raiva contra ele, dizendo o quanto não prestava. De repente, o cidadão aparece e, imediatamente, a senhora que segundos antes estava detonando o rapaz o abraça e beija, com um sorriso que me pareceu muito sincero. Também são fartas as fotos de Bolsonoro abraçado com Amin, artista assumidamente homossexual. São exemplos miúdos, mas representativos do quanto a proximidade física é fundamental para a boa convivência e respeito.

Na minha visão utopista, imagino todas as classes sociais, etnias, gêneros e religiões convivendo juntos nas praças e ruas da cidade, olhando o próximo de perto e se reconhecendo nele.

O diabo como aquele que separa

Outro dia, dando uma palestra sobre isso tudo numa instituição religiosa, fui abordado por um monge que me contou uma história que me deixou perplexo. Segundo ele, um dos significado da palavra diabo é separar, ou seja, a origem do mal está na segregação entre as pessoas. O diabo é aquele de divide, aparta, afasta. Há milhares de anos isso já é sabido, e mesmo assim continuamos fazendo tudo ao contrário.

A bicicleta contra ódio

Minha militância passa pela ocupação dos espaços públicos através de atividades culturais e da bicicleta. Sou bike anjo, um voluntário que ensina pessoas pedalar. Num primeiro momento, ensinar alguém se locomover sobre duas rodas pode parecer só isso, mas existe todo esse fundo político de ocupação das ruas e do combate à discriminação e ao ódio.

Como bike anjo tenho contato com pessoas fantásticas. No dia 8 de março, em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, fui pedalar usando saia, um ato simbólico contra o machismo. Aproveitei o domingo para realizar um atendimento, acompanhando uma pessoa que sabia andar de bicicleta mas que tem medo de enfrentar o trânsito. Por coincidência, era um homem trans e militante da causa. Foi um dia fantástico, mais uma excelente pessoa que entrou na minha vida por causa da bike.

Pedalar é fazer parte da cidade por inteiro, sem muros (ou carrocerias) nos separando dela. É conexão total, meio como os Avatares fazem quando se plugam nas árvores. É saber compartilhar o espaço público, é contato olho com olho com as pessoas, ao ponto de nos vermos refletidos no outro. É perceber que não somos tão diferentes assim, e que no fundo buscamos as mesmas coisas. 

Mas a luta é dura e às vezes penso que estamos perdendo. Esta semana a prefeitura derrubou bancos que ficavam numa pequena praça na Lapa. Moradores pediram isso, alegando que mendigos usavam o espaço para dormir. E assim vamos segregando.

Textos relacionados:

Violências cotidianas
Bicicleta e emancipação feminina
Quantas vidas a rua salvou?
O Rio é rua, e a rua é as extensão da minha casa
Rua para pessoas

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Bicicletas e emancipação feminina

Nas contagens de bicicletas que a Transporte Ativo* costuma fazer é comum os resultados mostrarem mais de 90% dos ciclistas do sexo masculino. Nas ruas não é difícil comprovar essa estatística, de fato existem muito mais homens pedalando do que mulheres. Uma recente pesquisa revelou que o motivo disso não é o medo do trânsito ou aquela falsa fragilidade feminina, mas sim a mesma coisa que exclui as mulheres de diversos outros espaços: o patriarcado e o machismo, que colocam-nas como únicas responsável pelas atividades domésticas e cuidados com os filhos, deixando-as de fora de muitas outras funções sociais, das chamadas "coisas de homem".


Sou um Bike Anjo, voluntário que ensina pessoas a pedalar. Todo primeiro domingo do mês estou nos jardins do Museu de Arte Moderna (MAM), no Aterro do Flamengo, multiplicando a quantidade de ciclistas na cidade. A maioria das pessoas que aparece para aprender é composta por mulheres. Homem, quando vai, geralmente está acompanhado da namorada, que certamente teve papel fundamental no apoio moral para ele resolver assumir que não sabe pedalar e procurar ajuda. Homem sozinho é muito raro, e acho que o motivo é o mesmo citado acima. O macho não pode pedir ajuda, não pede informação. Isso é demostrar fraqueza.  

Para mim não importa o gênero de quem aparece na Escola Bike Anjo (EBA)**, mas confesso que fico mais feliz quando elas aparecem. É muito mais difícil ser mulher, elas ganham menos em seus empregos, sofrem muito mais repressão social do que nós e possuem mais responsabilidades. Como homem, diminuir meu machismo é uma atividade árdua e diária, reprogramar o cérebro e mudar de conceitos e ideias não é fácil, mas estou sempre tentando. Quero promover também a igualdade entre os gêneros, e ajudar uma mulher a andar de bicicleta é contribuir com sua emancipação. 

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* A Transporte Ativo é uma ONG que objetiva estimular o uso da bicicleta como modal de locomoção;
** A Escola Bike Anjo acontece todo primeiro domingo do mês, das 14h30 às 17h, nos jardim do MAM. Em Niterói acontece no terceiro domingo no Teatro Popular, das 16h30 às 19h. Curta nossa página no Facebook.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Quem anda de bicicleta não presta

Quem anda de bicicleta não presta, hoje nós sabemos disso. São pessoas não qualificadas”.
Este foi o depoimento dado por um senhor recentemente para o Estadão numa reportagem sobre ciclovias e que acabou virando um meme entre os ciclistas. Se prestar significa pensar esse tipo de barbaridade, então eu felizmente faço parte do ainda pequeno grupo daqueles que não prestam, com muito orgulho.

Em outra situação, o comerciante tem todos seus argumentos contra a implementação de ciclovias respondidos pelo secretário de transporte. Não satisfeito, no final ele sai com essa pérola: "Por que que vou andar de bicicleta agora com 64 anos? Bem para saúde é médico, hospital e remédio". Amigo, médico, hospital e remédio é doença, não saúde.


Quando a decisão é tomada no campo emocional, é muito difícil de ser mudada. Mesmo assim vamos lá:
  • A consulta pública sobre se o paulistano quer ou não ciclovias foi feita nas urnas, no plano de governo do prefeito eleito;
  • As bicicletas começam aparecer com a construção da estrutura cicloviária. A demanda reprimida é em média de 60%, segundo pesquisas realizadas pelo mundo, ou seja, mais da metade das pessoas entrevistadas respondeu que começaria a pedalar se houvesse mais segurança e ciclovias;
  • As ciclovias e fechamento de ruas para carros em Nova Iorque e Portland aumentaram em 50% o faturamento dos comerciantes, visto que é mais fácil ver os produtos das lojas e estacionar quando se está a pé ou de bicicleta;
  • As ciclovias aumentaram a velocidade das ruas e diminuíram os engarrafamentos, e isso aconteceu porque muita gente começou a pedalar e a quantidade de carros diminui;
  • A rua é pública e merece ser usada de forma pública. Quando se cria uma ciclovia numa área que antes funcionava como estacionamento, o que está sendo feito é mudar o uso privado, para guarda de um objeto privado (o carro), para uso público, com várias pessoas utilizando o espaço para locomoção. Criar ciclovias é fortalecer a democracia.
Não sou contra o carro, muito pelo contrário, mas uma cidade precisa oferecer segurança a todas as formas de locomoção e a possibilidade de utilizar diversos modais em um trajeto. Incentivar o uso da bicicleta é bom para todos.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O quê você faz?


Na Finlândia, quando se conhece alguém e perguntamos o que ela faz, a resposta não é o trabalho, mas o hobby. Pode ser aeromodelismo, xadrez, ciclismo, montanhismo ou qualquer outra atividade, as pessoas se identificam primeiro com com o que elas fazem quando não estão trabalhando. Além disso, os finlandeses trabalham apenas seis horas por dia em locais que ficam a quinze minutos de casa.


Aqui no Brasil e em muitos outros países, quando fazemos a mesma pergunta a resposta é a profissão. Sou advogado. Analista de RH. Auxiliar administrativo. Não que o trabalho não seja uma forma de realização, pelo contrário, mas muitas vezes dedicamos tempo demais e acabamos não fazendo outras coisas que também são prazerosas.

Até quando não estamos trabalhando estamos pensando em alguma forma de conseguir uma promoção ou amento de salário. Fazemos cursos, especializações, línguas, sempre com temas ligados às atividades profissionais que desenvolvemos. Quem não tem vontade de, ao invés daquele curso de marketing, estudar gastronomia, por exemplo? E trocar aquela pós-graduação em finanças todo sábado de manhã por aulas de literatura ou pintura? Você já parou para pensar quando foi que reservou um tempo para você fazer algo que realmente gosta?

Por isso quero propor um exercício. Se você tivesse que se apresentar para alguém e essa apresentação não pudesse citar seu trabalho, como seria? Qual a atividade que você faz ou gostaria de fazer com a qual se apresentaria na Finlândia? Se você também trabalhasse apenas seis horas por dia, a 20 ou 30 minutos de casa e tivesse tempo para se dedicar a algum hobby, qual seria?

Agora que fizemos esse exercício, peço duas reflexões: o que você está esperando para começar? É sério que vai deixar a vida passar e dedicar toda sua energia ao trabalho? A segunda reflexão: será que é possível um dia sermos como a Finlândia e trabalhar apenas seis horas por dia e não gastar mais que uma hora (ida e volta) para casa?

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Transcrição da abertura e slide da minha palestra Bicicletas, Planejamento Urbano e Felicidade.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Carta aberta à André Abreu


Nasci e fui criado na Ilha do Governador. A bicicleta é meu principal meio de transporte. Escrevo este texto para André Abreu, que admitiu publicamente ter derrubado ciclistas na Linha Vermelha propositalmente enquanto dirigia seu carro a 120km/h. Poderia ter sido eu o derrubado. Minha mãe poderia estar agora chorando em cima do meu caixão. Por isso espero que ele leia meus comentários.

Comecei a pedalar por um trecho da Linha Amarela e Vermelha para fugir da cracolôndia da Avenida Brasil, ou seja, procurando uma rota mais segura. Era comum relatos de assaltos praticados naquela área e por isso iniciei esta prática.

Morando na Ilha e trabalhando no Centro, fiz esse trajeto pedalando, ida e volta, diariamente durante aproximadamente um ano. Posso dizer por experiência própria que a Linha Vermelha é mais segura pelos seguintes motivos: a pista é mais larga, o asfalto é melhor e há poucas entradas e saídas. Subo na via pela Ponte do Saber e desço em São Cristóvão. Na volta, subo no Caju e desço no Fundão, ou seja, não preciso atravessar nenhuma agulha.

Além de procurar um caminho mais seguro para chegar ao trabalho, pedalar na rua é para mim um ato político. É uma reivindicação de uso da bicicleta como meio de transporte, principalmente quando faço isso em um local dito proibido.

A forma como a cidade é planejada privilegia o carro. A maior parte dos investimentos públicos é feita para beneficiar o transporte individual. A ponte estaiada de São Paulo é um exemplo recente de como os governantes administram a cidade. Custou 200 milhões de reais e só é permitida a travessia por veículos motorizados. Pedestres e ciclistas estão proibidos de atravessar o rio por ela.

Apenas 20% das pessoas se locomovem de carro, ocupando 80% do espaço das ruas. Enquanto isso, o resto das pessoas, ou seja, 80%, precisa se espremer nos 20% restantes das vias. Para piorar, a maior parte do investimento visa apenas construir mais espaços de uso exclusivo dos carros. Esses números precisam ser alterados. Incentivar o transporte público, a bicicleta e o pedestre é uma questão de democracia. Mais recursos para beneficiar mais pessoas.

Quando pedalo pela Linha Vermelha estou dizendo que existo, que me locomovo de bicicleta e que a cidade precisa ser planejada para gente como eu também. Durante muito tempo nós fomos deixados de lado, mas agora reivindicamos políticas públicas que nos beneficiem. Não é possível mais admitir que novas pontes, viadutos e estradas sejam construídas sem que se pensem na gente. É possível e São Paulo está consertando este erro histórico criando ciclovias nas marginais. É um projeto piloto que deve ser estendido para outras vias. Nada deve parecer impossível de mudar e eu acredito que ações como essa possam ser feitas no Rio.

O mais assustador dessa história é que diariamente dezenas de crianças se arriscam entre os carros na Linha Vermelha vendendo biscoitos e bebidas. Não são apenas crianças trabalhando, são crianças em um trabalho insalubre e perigoso. Não entendo como essa situação não chame mais atenção do que ciclistas procurando uma rota mais segura em seus trajetos.

Esse tipo de pensamento que o André expressou um dia será extinto. Aos poucos, através da nossa militância, estamos contribuindo para acabar com esse tipo de comportamento. Chamar um jogador negro de macaco não é mais um comportamento aceitável. Fazer chacota com o sotaque da Miss Ceará não é mais um comportamento aceitável. Ameaçar ciclistas com carros não é mais um comportamento aceitável.

Faço questão de frisar que nós combatemos idéias e comportamentos racistas e violentos. Nossa luta não é contra as pessoas, por isso rechaço todas as ameaças que o André está sofrendo.

Eu não mereço ser atropelado. Sou uma pessoa querida pelos meus amigos, dedico boa parte da minha vida militando pela construção de um mundo mais justo. Trabalho numa das principais organizações que denunciou a fome no Brasil, contribuindo para que o país deixasse recentemente o mapa da fome da ONU. Pauto minha vida no respeito ao próximo e as dezenas de amigos que tenho não ser furtarão a declarar o quanto isso é verdade. Mas independentemente disso, mesmo sem considerar a conduta e valores morais de qualquer pessoa, ninguém merece ser atropelado e morto por pedalar pela cidade.

O André tem a filha na foto de perfil do Facebook. Será que não passou pela cabeça dele que aquelas pessoas que ele derrubou e que poderia ter matado também não possuíam filhas, e que elas pudessem estar esperando os pais em casa, assim como a dele estava? Mas tendo filhas ou não, sendo cidadão de bem ou não, ninguém merece ser atropelado por pedalar pela cidade.

O engraçado é que o André reclamou que o ciclista estava trafegando em um local proibido e dirigia seu carro a 120km/h em uma pista que possui velocidade máxima permitida de 100km/h. É sempre assim, a maior parte das reclamações que ouço na Linha Vermelha vem de motoristas que assistem DVDs presos aos painéis, que dirigem com uma mão, falam ao celular ou motociclistas que não trafegam pela faixa obrigatória da direita. Pessoas que reclamam daqueles que infringem regras infringindo regras.

Depois da repercussão que o caso teve, André divulgou um texto que não explica o que aconteceu. Lendo alguns comentários de seus amigos, vi pessoas falando de Deus para dar suporte a ele. Na boa, não entendo como sempre Deus é citado para justificar atitudes criminosas e violentas. Deve ser por isso que sou ateu, Deus para mim deveria significar amor e não ódio.

Outro argumento citado é que não é mais possível dar opinião. Vejam bem, opinião é uma coisa, incitar o crime, o ódio e a violência é outra coisa completamente diferente. Viver em uma democracia não significa que você pode sair por aí matando os outros.

Essa história está apenas no início e não pode acabar assim. Denunciei como crime de ódio na Polícia Federal e espero que ele seja chamado para prestar depoimento. Peço que todos façam o mesmo. Divulguem e denunciem o caso.

*****


De boa! E escrevendo sem rodeios ... bicicleta tem lugar certo de andar ... esses pseudo ciclistas que andam na Linha vermelha sentiram o deslocamento de ar de uma massa com mais de 1.5Ton a 120km/h conhecido e batizado carinhosamente como #hulk e foram parar no chão... não tenho pena! Lugar de carro é na RUA e bicicleta é em ciclovias 1.2m de distancia é o KCT... não me venham com puritanismo babaca pq passo por cima da magrela sem dó! Não vou por minha integridade física em risco por causa de modinha! 0 direito de um ciclista de ir e vir acaba onde começa o do motorista de ir e vir! Afinal ninguém apoiou o menino quando ele se meteu com um tigre então não se arrisque se não quer acabar machucado! — se sentindo sem direitos! (André Abreu)

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Rua para pessoas

Sou cicloativista, tento contribuir para a criação de uma cidade onde seja possível se locomover de bicicleta com mais segurança. Tentando disseminar essa ideia, dou gratuitamente uma palestra chamada Bicicleta, Planejamento Urbano e Felicidade, na qual converso sobre como uma cidade bem pensada pode contribuir para criar munícipes mais felizes. Vou abordar aqui, em várias postagens, alguns dos assuntos desta palestra.

**********

As ruas foram feitas para os carros. Será?

Uma das coisas nós, ciclistas, mais escutamos nas ruas dos motoristas é que rua é lugar de carro. É muito comum, já ouvi inclusive uma gravação dessas kombis piratas que dizia: - você que tá certo andando na rua, vou começar a andar na calçada. Mas será mesmo que as ruas foram feitas para os carros? Vamos analisar:

Podemos considerar que as ruas surgiram junto com as primeiras cidades na Babilônia. O carro se popularizou no século XIX, ou seja, são cinco mil anos de distância. Essa reflexão nos leva a conclusão que não, as ruas não foram feitas para os carros pelo simples motivo do carro não existir quando as ruas surgiram.

Então, para que serviam as ruas?


A pintura acima foi feita por Debret no início século XIX. Rua Direita, atual Primeiro de Março. A construção branca e a igreja ainda estão lá, são, respectivamente, o Convento e a Igreja de Nossa Senhora do Carmo. Ao fundo, o não mais existente Morro do Castelo e o arco que ligava o convento ao Passo Imperial, construído com a chegada da família real.

Essa ilustração mostra bem que:
Os espaços públicos no Rio de Janeiro do século XIX funcionavam como pontos de convergência - espaços dinâmicos de suporte de artes performáticas. As praças e ruas tornavam-se pontos de encontros e facilitavam distintas formas de interação social entre seus frequentadores habituais, os escravos. (...) A chegada do peixe fresco ao mercado, as negras vendendo apetitosas frutas tropicais, o transporte de objetos nas carroças ou pessoas em cadeirinhas, pequenos intervalos roubados entre uma atividade e outra dão a medida da diversidade do meio urbano, verdadeiros locais de trabalho, passeios, compras, vendas, encontro e performances políticas, como também de castigos exemplares, citando os pelourinhos, entre tantos. (fonte)

Ou seja, a rua era local de encontro, da conversa, da brincadeira, da interação social. Obviamente também eram vias de locomoção, mas não apenas isso.

Bicicleta é para andar na rua

Segundo o Código de Trânsito Brasileiro, a bicicleta é um veículo, e como tal tem que trafegar pela rua, sendo proibido a pedalada na calçada. E todo veículo motorizado precisa passar a pelo menos um metro e meio do ciclista.

Então, motorista, hoje aprendemos que:

- As ruas não foram construídas para os carros;
- Lugar de bicicleta não é na calçada, é na rua, e ao passar por uma mantenha a distância de 1,5m. Se não for possível, aguarde até poder fazer a ultrapassagem com segurança, ali tem uma vida, e uma vida não vale mais do que sua pressa.


Saiba mais sobre o que diz o CTB sobre o assunto aqui.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Novo padrão de calçamento do Rio de Janeiro

O novo padrão de calçadas da Via Binário exclui o cadeirante

Uma cidade que pretende resolver seus problemas com engarrafamentos precisa oferecer às pessoas alternativas ao carro, como investimento em transporte público, bicicletas e, porque não, caminhada. Mas o Rio de Janeiro é extremamente hostil aos pedestres, conforme já escrevi nesta e nesta postagens. Para atravessar uma via utilizando as faixas de pedestres e passarelas, algumas vezes é preciso caminhar 800 metros. Ida e volta, 1.600. Deste jeito, até para ir à padaria perto de casa o indivíduo opta pelo carro. Quem já precisou atravessar a Avenida das Américas a pé conhece muito bem essa dificuldade.

Infelizmente, as novas vias que estão sendo construídas mantêm esse padrão de desestímulo ao andar. A nova via Binário, que ainda não foi inaugurada, é um exemplo. A poucos metros da placa que alardeia o "novo padrão de calçadas", um trecho no qual não é possível passar com uma cadeira de rodas.

Estou muito preocupado com as obras do Porto Maravilha. Os vídeos que mostram como a região vai ficar são lindos, mas as partes que já estão ficando prontas são aterradoras. O Cais do Valongo, por exemplo, é inóspito. As praças precisam ser lugares que atraem as pessoas, lugares de convivência, de bate-papo, aposentados jogando um carteado, crianças brincado, donos de cachorros levando seus bichinhos para passear, como a Praça Saens Peña. O Valongo é o oposto disso, além de não possuir bancos nem sobras, foi calçado com uma pedra que reflete a luz do sol, que além de aumentar a temperatura, incomoda a visão, tamanho a claridade (saiba mais).

Cais do Valongo: quente, sem bancos, sem sombras. Um lugar hostil.

Veja a Ponte Estaiada de São Paulo. Há quem a ache linda, mas tirando as questões estéticas, ela custou duzentos milhões e só possui um único uso: veículos motorizados. Não é permitido pedestres nem ciclistas.


Fico pensando se as praças e viadutos estão sendo projetados propositalmente para afastar as pessoas em vez de agregá-las, ou se é por pura incompetência de seus planejadores. A Perimetral vai ao chão para dar lugar a calçadas e ciclovias, mas torço para que não seja nesse padrão.


quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Planejamento urbano

Uma amiga comprou um apartamento caríssimo na Cambaúba. As paredes internas foram feitas com drywall e era possível ouvir até os sussurros dos vizinhos. Ela teve que entrar com um processo contra a construtora, pedindo a troca do material para que ela pudesse, enfim, desfrutar da privacidade que uma família precisa ter no lar.

A lição deste acontecimento é que o design, a forma como as coisas são projetadas e construídas, podem evitar conflitos entre as pessoas. Essa briga judicial poderia não ter acontecido se o prédio tivesse sido planejado visando o bem estar de seus habitantes, e não apenas o lucro ao utilizar itens mais baratos.

O mesmo acontece com as cidades. Quando há um planejamento urbano eficiente, que leva em consideração todos aqueles que fazem uso dos espaços públicos, as brigas e desentendimento entre os munícipes são amenizadas.

Porque este é mais curto
Uma antiga história (chinesa, se não me engano) fala de um imperador que queria construir calçadas numa cidade. Antes de construi-las, mandou plantar grama no local. Só depois de algum tempo, vendo onde a grama estava gasta, indicando os caminhos utilizados com mais frequência, a obra foi iniciada. Infelizmente esta lógica não é aplica no planejamento urbano brasileiro, que atualmente tem como prioridade a circulação de carros.

Exemplos:

Dando como desculpa a segurança, a prefeitura está tentando conduzir o tráfego de pedestres na cidade cercando algumas vias com grades, fazendo com que as pessoas (que não possuem motor) fiquem com o ônus dos deslocamentos mais longos. Alguns, obviamente, rompem as grades e continuam atravessando nos trechos mais curtos.


A foto acima foi tirada em frente ao Into (Instituto Nacinal de Traumatologia e Ortopedia). É um hospital que tem a maioria dos atendimentos oriunda de pessoas com problemas de locomoção, que usam cadeiras de rodas, muletas ou estão engessadas. O tamanho da passarela que essas pessoas precisam cruzar  é absurdo. Muitas faixas foram espalhadas com mensagens do tipo "pedestre atravesse pela passarela" e "sua segurança em primeiro lugar", além das já tradicionais grades.

Muitas pessoas simplesmente não respeitam os avisos e as cercas (eu também não respeitaria), e se arriscam entre os carros porque é inacreditável ter percorrer 200 metros para atravessar uma avenida, subindo e descendo por uma passarela. Claro que além do risco de acidentes, os motoristas xingam os pedestres e vice-versa, gerando um conflito e estresse que poderia ser evitado com um design inteligente.

Cidades evoluídas contratam antropólogos para ajudar no planejamento. Eles vão para as ruas, praças, parques, observam como se dá o uso dos espaços públicos para depois, junto com designers, arquitetos e a população, sejam apresentadas propostas de intervenção.

Não estou aqui para propor soluções, esta é uma questão que deve ser debatida por todos os usuários do espaço, mas que não pode continuar desse jeito, isso não pode. Mas sabemos muito bem quais são os interesses que a prefeitura representa, não são os meus nem os seus, a não ser que você seja um empreiteiro ou dono de empresa de ônibus.

Para finalizar, um exemplo da China:









Para chegar ao outro lado da grade, as pessoas passam pelo bueiro. Lindo! Sempre encontraremos um caminho.