sábado, 4 de outubro de 2014

O Rio é rua e a rua é a extensão da minha família

Paulo Leminski
Sou filho de migrantes nordestinos. Depois de casar, meu pai veio para o Rio e só quando conseguiu emprego trouxe minha mãe. Final da década de 70, uma história comum para muita gente que quis tentar a sorte no Sul Maravilha. Por conta disso, meu núcleo familiar aqui é muito pequeno, apenas meus pais e meu irmão. Na Paraíba somos muitos, todo ano é organizada uma mega festa que tenta reunir a maior quantidade possível de membros em um hotel. Ainda não fui, mas está em meus planos beber umas cervejas com essas pessoas com as quais divido o sangue e que há muitos anos não vejo.

A família da minha mulher também é numerosa. Oriunda de Ribeirão Preto, estive lá há pouco para conhecê-los. Obviamente rodei a cidade, queria saber como se dá a relação dos munícipes com os espaços públicos, um dos focos do meu ativismo.

A vida na rua no Rio é uma coisa única. A forma como o carioca ocupa praças, parques e calçadas não se vê em outras cidades, e meu etnocentrismo inicialmente não gostou de Ribeirão. Não há festa nas esquinas. Não há bandas musicais tocando debaixo de árvores. Não se sente o cheiro do dendê que sai do tacho da baiana e que se espalha pelos quarteirões. São poucas as áreas verdes. Aquilo me sufocou e não consegui me imaginar morando ali. 

Por outro lado, vi relações familiares muito fortes entre os Ribeirões Pretanos. Famílias numerosas morando uns próximos aos outros. Quem não mora perto, vai estar com os seus quase todo final de semana. Churrascos e aniversários são motivos para reuniões animadas e, entre brigas e declarações de amor, estão sempre todos juntos. Só então entendi que a rua, para mim, exerce um papel parecido com o da família.

No Rio os núcleos familiares são pequenos, talvez por conta da migração, como no caso dos meus pais, talvez pelo encastelamento em condomínios por parte da classe média com medo da violência. Isso fez com que a rua e as relações dela resultantes suprisse as lacunas deixada por este enfraquecimento.

O Rio é rua e a rua é a extensão da minha família.

Sei que estou correndo o risco de ter escrito uma grande besteira, mas precisava colocar isso para fora.

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