quinta-feira, 30 de julho de 2015

Planejamento urbano contra o ódio

Outro dia, pedalando, um taxista jogou o carro em cima da minha namorada. Depois fez a mesma coisa comigo. Gratuitamente, o trânsito estava fluindo e estávamos no canto da pista. Ele acredita que fazendo isso vai nos desestimular a andar de bicicleta pela cidade.

Poucos dias antes um amigo me ligou para relatar um fato parecido. Depois de ter sido vítima de agressões verbais de um grupo de motoristas que protestava contra a ciclovia de Laranjeiras e Cosme Velho, um taxista emparelhou ao lado dele, desceu o vidro e começou a xingá-lo.

O aumento do ódio no Rio é visível. Além das questões relacionadas ao trânsito, com homicídios motivados por banalidades, vemos justiçamentos, bandidos e inocentes espancados até a morte pela população que não acredita mais no Estado, uma polarização entre esquerda e direita que tem manifestado situações de confronto e violência. Haters destilando intolerância na internet, racismo, homofobia, transfobia e machismo. Isso sem falar nas miudezas do dia a dia, quando não damos mais bom dia uns aos outros e no péssimo atendimento que recebemos quando vamos contratar algum serviço.

Tive dois conhecidos que foram brutalmente assassinados e seus corpos jogados em rios unicamente por serem gays. O que está acontecendo? Parece que o Rio está descontrolado e sempre converso com amigos tentando descobrir o que tem motivado essa escalada do ódio nos últimos tempos.

Minha visão é a seguinte: acredito que a cidade está sendo organizada de forma a estimular o comportamento agressivo de seus habitantes.

O vídeo abaixo, da Superinteressante, resume bem o que quero dizer. Mostra como em um espaço de 70 anos a Alemanha passou do país mais odiado do mundo, por causa do nazismo, para o mais admirado, enquanto Israel, criado para abrigar as vítimas do holocausto e em nome da justiça e da liberdade, atualmente figura entre as nações que mais influenciam negativamente o mundo, ao lado de ditaduras fundamentalistas.


O bem e o mal existem ao mesmo tempo dentro de nós, e um dos fatores que determina qual dessas duas características vai se manifestar com mais intensidade é o ambiente no qual vivemos. Se vamos tratar os outros com respeito e tolerância ou com ódio e violência. Os alemães, ao criar uma sociedade igualitária, tolerante e desmilitarizada, criaram o meio necessário para hoje encabeçarem a lista dos países considerados com a maior influência positiva no mundo.

Infelizmente o ambiente do Rio de Janeiro é um meio que estimula a intolerância. Por isso me considero um ativista do espaço público, o objetivo da minha militância é contribuir para a criação de um espaço propício para que o bem se manifeste nas pessoas.

Menos muros

Um exemplo que gosto de dar é comparar o comportamento do muçulmano e do judeu aqui no Rio e no Oriente Médio. Atualmente os chineses estão dominando a Saara, região de comércio popular no Centro do Rio, mas foram os árabes e israelitas os pioneiros na área e que abriram as primeiras lojas. Ambos convivem pacificamente por aqui (fonte), mas em Gaza e Israel eles estão literalmente se matando. E o motivo é o muro.

Separar fisicamente dois grupos sociais faz com que ambos se vejam como inimigos. Faz com que eles sejam incapazes de demostra empatia pelos que estão do outro lado e favorece o processo de desumanização, e quando não enxergamos um ser humano no próximo somos capazes de cometer atos atrozes, como xingá-lo pelo simples motivo dele usar um meio de transporte diferente ou espancá-lo até a morte por causa da orientação sexual.

Por isso minha atuação pela proteção e aumento dos espaços públicos no qual as pessoas convivam sem muros. Fortalecer as áreas de convivência na cidade é estimular a empatia e diminuir o ódio. Precisamos de espaços como praças e parques no qual árabes convivam com judeus, gays com heterossexuais, evangélicos com espíritas, afrodescendentes com caucasianos,  ricos e pobres. Desta forma, ressaltaremos o que nos torna iguais e aprenderemos a respeitar e conviver nossas diferenças.

O planejamento do Rio estimula a violência

O Rio de Janeiro está sendo planejado de forma a favorecer o lucro de empreiteiros e empresas de ônibus. A população e o meio ambiente não são prioridade. Alguns exemplos:
  • Desapropriações violentas e sem indenização de comunidades pobres para criação de megaempreendimentos imobiliários;
  • Repressão ao trabalho dos camelôs, obrigando essas pessoas a viverem à margem e colocando-as em situação de vulnerabilidade;
  • O não investimento em metrôs e barcas, favorecendo empresas de ônibus que são grandes financiadoras de campanhas eleitorais;
  • Eliminação de espaços públicos, como praças, parques e áreas de proteção ambiental, como a reserva de Marapendi, para construção de condomínios;
Inscrição em parede na Vila Autódromo, comunidade removida pela prefeitura

A gente é tão vilipendiado todos os dias que é fácil perder o controle e destruir uma loja quando não conseguimos cancelar um serviço. Ficamos 4 horas presos todos os dias no trânsito que temos vontade de matar aquele que acreditamos estar atrapalhando o fluxo dos veículos. Proibição do trabalho dos camelôs e remoções criam um horda de insatisfeitos que perdem totalmente a crença no Estado. A destruição do espaço público faz com que deixemos de saber como conviver com o diferente, estimulando a violência.

Outro aspecto contribui com esse quadro é a proliferação de condomínios fechados, cujos muros funcionam da mesma forma como os que separam Gaza de Israel. Segundo o planejador urbano Rico Benjamim, 
(...) condomínios fechados criam um ciclo vicioso porque atraem moradores com um mesmo perfil que procuram abrigo do mundo exterior e cujo isolamento físico, então, piora a paranóia coletiva contra estranhos.
O psicanalista Christian Dunker também toca no assunto, ressaltando que o Estado se exime da responsabilidade em organizar o espaço público e entrega essa função para a iniciativa privada, fazendo com que seus habitantes não saibam lidar com a diversidade e ficando vulneráveis ao abuso de drogas, à agressividade e à violência, além do tédio, apatia e excesso de relação com o trabalho. Acho fundamental a leitura da entrevista que ele deu para o site Outras Palavras.

A bolha criada pela internet 

Claro estes não são os únicos motivos para o crescente do ódio. Tem muita gente pesquisando o assunto. Minha namorada, que é antropóloga, tem uma teoria muito interessante que relaciona a bolha na qual as redes sociais nos coloca com essa intolerância. Esse artigo de Ana Paula Assis, também publicado no site Outras Palavras, relaciona o Facebook aos subúrbios estadunidenses e aos condomínios brasileiros.

A saída é a rua

A vida em comunidade está sendo dilapidada e as consequências são graves, como tentei expor aqui. Cabe a nós reverter essa situação. Por isso encerro com as palavras de Dunker citado acima:
Obviamente, a asfixia e o empobrecimento de uma vida condominial são percebidos pelas gerações mais jovens. Eles olham pra isso e falam “é isso que eu tenho que sonhar? Ter um carrinho parado numa graminha e o vizinho enchendo a paciência? É muito pouco”. Onde é a saída? É o mundo, a rua.
Ocupemos as ruas! Protejamos as praças e parques. Utilizemos nossas bicicletas como ferramentas de contato com o outro.

O papel de ativistas que lutam para reverter esse processo é importante, mas precisamos também de um dos nossos no executivo. Por isso me filiei recentemente ao PSOL. Eleger Marcelo Freixo prefeito desta cidade se faz urgente.

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