quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Rua para pessoas

Sou cicloativista, tento contribuir para a criação de uma cidade onde seja possível se locomover de bicicleta com mais segurança. Tentando disseminar essa ideia, dou gratuitamente uma palestra chamada Bicicleta, Planejamento Urbano e Felicidade, na qual converso sobre como uma cidade bem pensada pode contribuir para criar munícipes mais felizes. Vou abordar aqui, em várias postagens, alguns dos assuntos desta palestra.

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As ruas foram feitas para os carros. Será?

Uma das coisas nós, ciclistas, mais escutamos nas ruas dos motoristas é que rua é lugar de carro. É muito comum, já ouvi inclusive uma gravação dessas kombis piratas que dizia: - você que tá certo andando na rua, vou começar a andar na calçada. Mas será mesmo que as ruas foram feitas para os carros? Vamos analisar:

Podemos considerar que as ruas surgiram junto com as primeiras cidades na Babilônia. O carro se popularizou no século XIX, ou seja, são cinco mil anos de distância. Essa reflexão nos leva a conclusão que não, as ruas não foram feitas para os carros pelo simples motivo do carro não existir quando as ruas surgiram.

Então, para que serviam as ruas?


A pintura acima foi feita por Debret no início século XIX. Rua Direita, atual Primeiro de Março. A construção branca e a igreja ainda estão lá, são, respectivamente, o Convento e a Igreja de Nossa Senhora do Carmo. Ao fundo, o não mais existente Morro do Castelo e o arco que ligava o convento ao Passo Imperial, construído com a chegada da família real.

Essa ilustração mostra bem que:
Os espaços públicos no Rio de Janeiro do século XIX funcionavam como pontos de convergência - espaços dinâmicos de suporte de artes performáticas. As praças e ruas tornavam-se pontos de encontros e facilitavam distintas formas de interação social entre seus frequentadores habituais, os escravos. (...) A chegada do peixe fresco ao mercado, as negras vendendo apetitosas frutas tropicais, o transporte de objetos nas carroças ou pessoas em cadeirinhas, pequenos intervalos roubados entre uma atividade e outra dão a medida da diversidade do meio urbano, verdadeiros locais de trabalho, passeios, compras, vendas, encontro e performances políticas, como também de castigos exemplares, citando os pelourinhos, entre tantos. (fonte)

Ou seja, a rua era local de encontro, da conversa, da brincadeira, da interação social. Obviamente também eram vias de locomoção, mas não apenas isso.

Bicicleta é para andar na rua

Segundo o Código de Trânsito Brasileiro, a bicicleta é um veículo, e como tal tem que trafegar pela rua, sendo proibido a pedalada na calçada. E todo veículo motorizado precisa passar a pelo menos um metro e meio do ciclista.

Então, motorista, hoje aprendemos que:

- As ruas não foram construídas para os carros;
- Lugar de bicicleta não é na calçada, é na rua, e ao passar por uma mantenha a distância de 1,5m. Se não for possível, aguarde até poder fazer a ultrapassagem com segurança, ali tem uma vida, e uma vida não vale mais do que sua pressa.


Saiba mais sobre o que diz o CTB sobre o assunto aqui.

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