quinta-feira, 25 de julho de 2013

Cuscuz com cinzas

Já contei aqui várias vezes o quanto a rua me fascina. Suas cores, cheiros e sabores. E quando digo sabores, obviamente estou me referindo ao farto cardápio oferecido pelos ambulantes em carrocinhas, barracas e tabuleiros. Mas confesso que atualmente não me aventuro mais como antigamente.

Tem uma loja de bicicletas atrás da Central do Brasil, e vez por outra passo lá para algum pequeno reparo na minha bike. Vou pela Rua Senador Pompeu, que concentra muitas lojas que fornecem matérias-primas para os ambulantes, além de algumas garagens de carrocinhas. Por isso vejo de onde vêm os ingredientes utilizados na preparação de sanduíches e demais refeições. Não vou aqui cometer uma injustiça dizendo que são impróprios para consumo, mas são todos absurdamente baratos e de marcas que só vejo lá. Além disso, a via é muito suja e com muitos moradores de rua. Esta situação de me deixa apreensivo.

Lembro de já ter assistido pela televisão uma batida da prefeitura numa dessas garagens de carrocinhas, que também servia como depósito para alguns alimentos. Um balde cheio de milho estava aberto e com alguns insetos mortos boiando na salmoura.

Tenho outros exemplos: por conta do trabalho, visitei um antigo prédio ocupado por famílias de sem teto. As pessoas não faziam questão de cuidar da higiene do local e não se incomodavam em viver em meio a sujeira e utilizar banheiros fétidos. E foi desse prédio que vi uma bandeja de cuscuz saindo diretamente para uma dessas bicicletas de carga, pronto para ser vendido pelo centro.

Sem falar do vendedor de churrasquinho que espantou os pombos para amolar a faca no meio-fio.


Bem, acho que vocês já entenderam. Por isso minha incursão na gastronomia de rua é feita de forma cirúrgica. Sempre gosto de conversar com os ambulantes para saber a procedência dos produtos e conhecer um pouco da história deles, histórias me fascinam.

Uma coisa que percebi é que na maioria das vezes o vendedor não é quem produz o prato. Existe toda uma cadeia produtiva interessante de analisar: tem uma pessoa que faz o alimento, outra que empurra a carrocinha, outra para levar o gelo, uma para preparar e vender. O vendedor muitas vezes assume mais de uma função, mas não é ele quem faz o preparo inicial, cabendo-lhe apenas a função de finalizar o prato, assando, esquentando e servindo.

Evito esse tipo de situação, dou preferência àqueles que além de vender, produzem toda a comida. Ou pelo menos empregam a família na produção, como o tio do cuscuz que fica perto do meu trabalho. Seu Pedro, aposentado, aproveita o tempo livre para ficar longe da mulher e vender o doce que ela produz. Também papeia com trabalhadores da região que estão sempre por ali. O cuscuz é divino, mas vez por outra vem com cinzas de cigarro que caem quando ele está me servindo, já que Seu Pedro fuma compulsivamente. Sempre relevo e como assim mesmo, afinal de contas, o que são cinzas de cigarro comparadas às outras impurezas que já ingeri por aí?

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