sexta-feira, 24 de julho de 2009

Casas de tolerância

Gosto de sair flanando pelas ruas do Rio, observando e documento os hábitos da cidade. Registro desde comidas de rua a apresentações de artistas, sou um Debret pós-moderno, que no lugar de uma tela e tinta óleo utiliza um blog e uma máquina digital.

Andando pelas ruas do Centro é comum receber filipetas de casas de tolerância. São muito parecidas entre si: geralmente ficam em sobrados, a entrada (uma escada bem apertada) é decorada com balões e luzes, além de possuírem o número de onde estão localizadas no nome do estabelecimento. Não preciso dizer que as mulheres das filipetas são apenas ilustrativas, não condizendo com as mulheres disponíveis.

Enfim, movido por um ímpeto desbravador, com interesses puramente antropológicos, me aventurei numa dessas casas. Descrevo aqui minha experiência.

Primeiramente gostaria de dizer que não fui sozinho, e, por motivos óbvios, não direi com quem fui. Subimos a estreita escada e logo estávamos no caixa. Alguns clientes subiam para o terceiro andar acompanhados, para onde ficavam os quartos (eu supus que os quartos ficavam no terceiro andar). Pagamos quinze reais, que nos dava direito a três cervejas, pegamos a comanda e entramos na boate.

Como queria ter podido tirar minha máquina da mochila e filmar aquilo. Parecia cena de filme, era difícil acreditar que aquele tipo de ambiente realmente existia. Sem dúvida, o lugar mais baixo nível que já tive oportunidade de conhecer. A boate era muito pequena, escura mas com luzes coloridas focadas, piscantes e em movimento. Mulheres vestindo apenas calcinhas e sutiãs, espelhos, queijos (espécie de tablado circular onde as dançarinas realizam as performances) e muita, muita fumaça de cigarro.

Assim que adentramos o recinto, estava rolando um bingo. Não sei qual era o prêmio, mas não é difícil imaginar o que poderia ser. Uma bicha gorda, vestida escandalosamente e com linguajar idem, cantava as pedras num microfone. Nunca ouvi alguém falar tanta putaria, era engraçadíssimo. Vez por outra uma das meninas pegava o microfone para proferir uma putaria ainda mais cabeluda. Mais uma vez me doeu não poder registrar aquilo com minha máquina.

O bingo estava no final, logo depois as caixas de som começaram a tocar funks com letras lascivas em altíssimo volume, alegrando as meninas. Ao contrário do que eu imaginava, muitas delas eram muito bonitas, com corpos também bonitos. Enquanto bebíamos nossas cervejas, streap teasers aconteciam nos queijos, dessa vez ao som de músicas pop internacionais. As danças não eram sensuais, eram escrachadas, baixo nível mesmo. Algumas até demonstravam certas habilidades no poste.

Enquanto estávamos na segunda lata de cerveja, fomos abordados por um menina, que sentou entre nós dois, num espaço muito apertado. A abordagem não foi muito agressiva, mas claramente ela tentou nos convencer a “namorar” um pouco aquela noite. Não lembro o nome dela, mas era uma morena muito bonita, que se insinuava sobre nós. Conversamos futilidades e tão logo que percebeu que só estávamos interessados na cerveja partiu para outra.

Muitos homens com terno e gravata bebiam e conversavam animadamente. Alguns idosos e outros com cara de psicopatas completavam o salão. Terminadas nossas três cervejas, fomos embora. Por mais esquisito que possa parecer, gostaria que minha digníssima estivesse presente. Ela também gosta de conhecer lugares novos e bizarros.

Essa foi minha experiência. Não sei se voltarei algum dia a um lugar como esse, mas minha próxima visita será numa dessas cabines eróticas de sexshop.

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