sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Os filhos da burguesia fazem arte

Sábado passado fui ao Sérgio Porto com minha digníssima, minha sogra e seu respectivo, assistir um espetáculo recomendado por nosso querido amigo Paulinho, que está participando de um processo seletivo para pós-doutorado em teatro.

Assistimos Às vezes é preciso usar um punhal para atravessar o caminho. Não costumo comentar as peças que assisto, mas essa vale um breve comentário.

Quando abri o programa e vi que era um grupo formado por alunos da CAL, inconscientemente (ou não) me armei e me preparei para assistir algo muito ruim. Esse “preconceito” tem fundamento, baseado em experiências passadas assistindo peças de alunos dessa escola e da Unirio. São sempre textos que só fazem sentido na cabeça do diretor, ninguém entende porra nenhuma. Muitos aplaudem e fingem que entendem. Eu não.

Além disso, por algum motivo que desconheço, não consigo aceitar os filhos da pequena burguesia produzindo arte. É claro que é um pensamento infundado, muitas obras maravilhosas foram feitas por filhos de banqueiros e demais abastados. Mas como tudo para eles é mais fácil, talvez por isso eu tenha dificuldade em legitimar suas produções. Ao passar dos minutos no espetáculo, entrei em dissonância cognitiva, um estado psicológico de incomodo diante de duas situações antagônicas: a burguesia fazendo arte.

Veja a sinopse da peça:

Neste espetáculo (...) o grupo procura refletir sobre a situação da política, da ideologia e da ética nos dias de hoje. A peça mostra um grupo de jovens terroristas fantasiados de personagens de Walt Disney que decidem assassinar dez celebridades. São membros da “Célula Revolucionária Clube do Mickey” e sua intenção é semear o pânico na sociedade através da morte de estrelas do show business. A trama se densenrola como um thriller e propõe, com humor ácido, uma reflexão sobre o culto à celebridade e o conflito entre duas gerações de revolucionários (a de 1968 e a de hoje). A dramaturgia tematiza conflitos existenciais da nova geração, como a sua alienação em uma sociedade que cultua celebridades e é guiada pela cultura de massa. O autor procura expor de forma irônica e metafórica a falta de crença, seja ela no que for, dos jovens contemporâneos, hoje tão desnorteados. Sem causas e idéias, à procura de algo por que lutar ou simplesmente à deriva, sentem-se perdidos em um mundo que exige cada vez mais deles.

Renato Russo foi uma pessoa muito importante na formação da minha personalidade. Foram dezenas, senão centenas, de noites com amigos bebendo vinho barato e cantando músicas da Legião Urbana. Em quase cem por cento dos casos um baseado rodava de mão em mão, deixando a todos (inclusive a mim, que ficava doidão de tabela) em contato direto com nossa essência mais pura. Pelo menos era assim que descrevíamos a experiência.

Hoje em dia eu não suporto ouvir Legião Urbana. Já deu, foi importante naquela época de adolescente. Continua sendo para os atuais, mas não mais para mim. Ouço Geração Coca-Cola e acho ultrapassada, e foi com a sensação de estar assistindo algo ultrapassado que iniciei a apreciação da peça.

Em pouco tempo essa impressão esvaiu-se. Impressionantemente, os atores, filhos da pequena burguesia carioca, conseguiram cumprir quase todos os objetivos propostos pelo texto: reflexão política, ideológica e ética dos dias atuais, o culto às celebridades que aliena toda uma sociedade, deixando toda uma geração à deriva.

Só erra quando propõe discutir o conflito entre duas gerações de revolucionários (a de 69 e a de hoje). Os jovens revolucionários de hoje (sim, eles existem) lutam contra o poder cada vez maior das empresas transnacionais, que são as grandes responsáveis pela pobreza no mundo, quando contratam mão-de-obra semi-escrava em países subdesenvolvidos, realizam enxugamentos (nome aceitável para demissão em massa), fazem lobby para diminuição dos direitos trabalhistas como o salário mínimo, poluem o planeta e, acreditem, contratam grupos paramilitares para assassinarem líderes sindicais na África, entre milhares de outras atrocidades.

A mídia e as celebridades foram alvos de ataques mais intensos depois da guerra do Vietnã, principalmente nas universidades estadunidenses, momento em que surgiu o politicamente correto e as políticas de representação. Não é mais o caso. Poderia ficar horas comentando sobre isso, mas não é o objetivo dessa resenha.

Enfim, acredito que o objetivo do autor nem tenha sido afirmar que os jovens revolucionários de hoje são assim, apenas foi a forma que encontrou para fazer sua crítica ao culto quase que religioso às celebridades.

A peça desliza também ao apresentar uma visão muito superficial (mas não equivocada) do capitalismo de choque. Excelente a frase proferida pelo empresário, um dos personagens: “De um novo inimigo. O capital se fortalece diante de ameaças”.

A crítica às celebridades é feita através de um humor muito aguçado. Destaco as cenas do programa televisivo sensacionalista que entrevista o Kiko (alusão ao cantor homônimo do grupo KLB) e o ensaio do grupo ao som de “Rádio Pirata” (mais uma referência ao grupo). Duas cenas fantásticas.

O mérito do elenco está em representar muito bem a si mesmo e a seus pares. Um grupo revolucionário cheio de contradições, oriundas dos condomínios da Zona Sul carioca. Talvez isso tenha facilitado o processo de criação dos personagens. Texto e elenco numa harmonização perfeita.

Finalizando, possuo um método muito simples para dizer se gostei ou não de um espetáculo teatral: aquelas peças nas quais eu gostaria de estar no palco são aquelas que gostei. Se a obra não me despertou essa vontade, não foi significativa. Em “Às vezes é preciso usar um punhal para atravessa o caminho” não tive vontade de atuar, tive vontade de ter sido o autor. Estou com muita vontade de conhecer outros trabalhos do Roberto Alvim.

Não parece um texto brasileiro. Achei que estava assistindo uma adaptação para o teatro de algum filme francês. Não fiquei surpreso em saber que o espetáculo foi traduzido e apresentado na França e Suíça.

Destaco e dou os parabéns a três atores:

Leonardo Carvalhal (Pluto);
José Karini (Secretário e Olavo) – maravilhoso, sua atuação já vale a saída de casa;
Carolina Ferman, que além de arrebentar, é linda, gostosa, cheirosa, um espetáculo de mulher.

Destaque também para os figurinos (Nello Marrese) e para a luz (Renato Machado), que estavam corretíssimos. Parabéns também para o diretor Ivan Sugahara.

O espetáculo termina com o seguinte questionamento, que já passou pela cabeça de todo revolucionário (inclusive a minha, um dia conto essa história): será que a população quer que lutemos por eles? Não estão eles felizes com essa vida que acreditamos serem superficiais e fúteis? Nunca saberemos.

Serviço:

Espaço Cultural Sérgio Porto
Sexta à domingo
Apenas R$1,99
Grupo teatral Laranja Eletrônica
www.laranjaeletronica.shutterfly.com
www.twitter.com/laranja_eletrni

Saí do teatro incomodado. A arte cumpriu seu papel.

Atualização: quem faz o Pluto é o ator Leonardo Carvalhal, e não o Rodrigo Sobrera, como anunciado anteriormente.

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