quinta-feira, 1 de março de 2012

Uma história de amor ao Rio

Outro dia li uma reportagem sobre o jornalista Caco Barcelos na revista Rolling Stone, na qual ele conta que adora ouvir histórias, até mesmo as contadas por mendigos. Lembrei de uma conversa que tive com um morador de rua na barca que estou para relatar há algum tempo, segue abaixo.

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Estava voltando sentado no chão da varanda do segundo andar da barca, ao lado da minha bicicleta, quando senta um cidadão ao meu lado perguntando sobre um albergue na Ilha do Governador. Inicialmente imaginei ser uma dessas hospedarias para jovens viajantes e respondi não conhecer nenhuma. Fiquei preocupado, já que ele deveria estar chegando ao Rio e não tinha o endereço de onde passaria a noite. Quando começou a dar a descrição do local, perto de um viaduto, com um restaurante, percebi que tratava-se do Stella Maris, abrigo para pessoas em situação de rua.

Como já era tarde, estávamos na última embarcação de sexta-feira, das 21 horas, perguntei sobre o horário de entrada. Ele respondeu que era até as 10 da noite, se passasse disso perderia a vaga. Seria sua segunda noite no albergue. Tive que dar a triste notícia que, infelizmente, não conseguiria chegar a tempo, já que 10 horas era o horário previsto de chegada da barca, e que além disso seria necessário mais uma condução até o Galeão. Obviamente ele ficou desolado, mas aproveitamos o resto da viagem para conversar, queria saber um pouco da história daquele cidadão.

Com 30 anos, tinha chegado há poucos dias no Rio de Janeiro, depois de uma curta temporada em São Paulo. Lá estava hospedado na casa da irmã e trabalhava como servente, emprego que conseguiu com certa facilidade. Diante das constantes brigas com o cunhado, pediu demissão e veio de carona tentar a sorte aqui. Esqueceu os documentos no caminhão, ficando apenas a carteira de trabalho, e isso o impedia de conseguir trabalho. Seu objetivo prioritário era, portanto, conseguir novas vias com ajuda dos serviços de assistência social da prefeitura.

Minha bike e a vista do Monumento a Estácio de Sá. Joguem minhas cinzas aqui.

Paraibano, deixou mulher e filhos em busca de emprego, já que não conseguia nada em sua cidade. Recém chegado ao Rio, contou que em todas as suas andanças (além de Paraíba, Pernambuco e São Paulo) nunca viu lugar tão bonito. Em certas ocasiões teve vontade de gritar na rua, de tão encantado que ficou com nossas paisagens. Não tem mais vontade de sair daqui, e, apesar de estar desempregado e não ter onde dormir, pela primeira vez na vida estava feliz.

Impressionante, sentados no chão com os pés nas grades da varanda da barca, observando o mar, a lua e contorno da cidade no horizonte, o jovem do qual nome não lembro me relatava, de forma muito sincera, todo seu fascínio pelo Rio. Apesar de toda adversidade que estava enfrentando, ele se sentia feliz apenas por estar aqui e ter a oportunidade de ver as praias, montanhas e demais belezas que se descortinam a nossa frente. O mais bacana de tudo é que eu também me encanto e acho que nunca vou me acostumar. Toda vez que saio do trabalho e vou pedalando para meu curso em Botafogo, pela praia do Flamengo e enseada, fico embasbacado com o contorno do Pão de Açúcar. Quando morrer, quero minhas cinzas jogadas no mar na altura do obelisco a Estácio de Sá.

Conversamos mais coisas, mas acho que já escrevi demais. Esta é mais uma história de amor pelo Rio, que deixo registrada no dia do seu aniversário. Salve a Mui Leal e Heróica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro! 447 anos.

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