sábado, 1 de setembro de 2012

A felicidade deve ser o objetivo da vida

Outro dia fui reconhecido pela bilheteira do cinema quando comprava um ingresso. Já que eu estava sempre por ali, ela quis saber minha opinião sobre um intervenção plástica que deveria ou não fazer. Trocamos algumas amenidades, sorrisos, brincadeiras e nos despedimos. Tudo isso durou o tempo da compra. Foi um momento agradável que comprovou uma coisa: a felicidade está nas nossas relações com outras pessoas.


Consumo e felicidade

Na minha biblioteca tenho alguns livros sobre consumo, principalmente sobre os perigos de seu excesso. Eles costumam citar diversos índices que medem a felicidade das pessoas, e, ao contrário do que inicialmente possa parecer, ela não está ligada a altos padrões de compra. Possuir coisas (carros luxuosos, smartphones, tablets, computadores, roupas da moda) não é sinônimo de felicidade.

Veja abaixo a lista dos países com a população mais feliz, segundo o Happy Planet Index:

  1. Costa Rica - 64.0
  2. Vietnã - 60.4
  3. Colômbia - 59.8
  4. Belize - 59.3
  5. El Salvador - 58.9
  6. Jamaica - 58.5
  7. Panamá - 57.8
  8. Nicarágua - 57.1
  9. Venezuela - 56.9
  10. Guatemala - 56.9

O Brasil está em 32º lugar com 52.9 e os Estados Unidos em 115º com 37.3.

Existem outros índices que apontam para o mesmo resultado, e vejo a verdade disso diariamente nos meus círculos sociais. Existem pessoas próximas a mim com bons salários e elevados padrões de consumo mas que estão insatisfeitas com a vida. O contrário também é verdadeiro, amigos extremamente felizes apesar da vida modesta.

Muita gente tenta resolver o vazio existencial e a falta de boas relações sociais comprando coisas. A compra dá uma satisfação momentânea, como uma droga que requer outra dose tão logo passe seu efeito.

Dica 1: Ter muitas coisas não vai fazer você feliz!

Então, o que fazer?

Por que países onde as pessoas compram tão poucas coisas são os mais felizes? Simples: as relações humanas e comunitárias.

Ouvimos o tempo todo o quando vivemos em uma sociedade individualista. As pessoas não conhecem seus vizinhos e possuem cada vez menos amigos, e isso deixa qualquer um muito vulnerável. Não ter com quem compartilhar as alegrias e tristezas da vida é muito ruim, leva a depressão. O seriado Friends é bacana só na televisão, ter apenas cinco amigos na vida real é complicado.

O Facebook dá uma falsa sensação de proximidade. Novos projetos, novos convites surgem nas interações ao vivo. Outro dia encontrei um amigo nas barcas e saímos de lá cheios de idéias para por em prática, vou voltar aos palcos teatrais, já estou comprometido com ensaios, discutir texto, proposta de encenação e tudo que envolve a peça. Vou ocupar meu tempo e minha cabeça com uma excelente atividade, vou viver, fazer algo que gosto, colocando para mais longe qualquer possibilidade de tristeza. Este tipo de coisa só acontece ao vivo, offline.

Nos países mais felizes a comunidade se encontra nas praças para conversar, existem espaços públicos para convivência, parques. Por aqui, cada “espaço vazio” está sendo tomado por shoppings e condomínios, afastando ainda mais as pessoas ou fazendo com que elas se encontrem apenas para as compras.

O resgate da cidade para as pessoas

Antes de virar cicloativista, eu ia caminhando do trabalho até a Praça XV para pegar uma van ou a barca para Ilha. O caminho é caótico: ônibus parando fora do ponto, pessoas correndo para conseguir embarcar, carros na faixa de pedestres, o sinal que só fica fechado por poucos segundos, obrigando mais uma vez as pessoas a correr, buzinas, motoristas irritados, fumaça, idosos e deficientes indo de um lado para o outro com dificuldade para conseguir chegar em casa. Pensava comigo mesmo: se morasse numa cidade do interior e chegasse no Rio agora, não sei se conseguiria me acostumar com isso.

Quando abracei a bicicleta, não sabia que esta era uma causa muito maior do que reivindicar o direito de ir e vir sobre duas rodas. O cicloativismo tenta resgatar a cidade para as pessoas. Transporte público de qualidade para que o cidadão deixe o carro em casa, calçadas mais largas, mais espaços verdes, mais parques e praças, mais lugares para que as interações possam acontecer e novas idéias, novos projetos e a criatividade possam fluir. Dá para fazer, não é impossível. Um exemplo:

O projeto Cidades Para Pessoas rodou alguns países da Europa e mostrou algumas iniciativas de sucesso. Em Copenhague, um rio que atravessa o centro da cidade era margeado por várias indústrias. Em 1991 era impossível que suas águas fossem utilizadas para atividades recreativas, mas agora as piscinas públicas são uma opção de lazer para a população. Veja abaixo.



Consegue imaginar uma piscina desta no Rio Pinheiros? Eu consigo, porque assim como em São Paulo, o canal que atravessa Copenhague também era extremamente poluído e degradado, visto com maus olhos pela população, defenestrado, fonte de problemas, de alagamentos. Mas uma pequena atitude foi tomada recentemente que está fazendo com que as pessoas se relacionem de outra forma com o rio paulistano: uma ciclovia na Marginal Pinheiros. Segundo Nizan Guanaes:

Pela primeira vez em décadas, um número grande de paulistanos tem contato direto com o rio, um contato transformador. Vendo o rio de tão perto, o desejo de limpá-lo só aumenta.
É um daqueles atos perfeitos onde todos ganham: a revitalização do rio estimula ação comunitária, aumenta a mobilidade urbana e o acesso, sem necessidade, de mais carros, trilhos e ruas, cria desenvolvimento econômico, impede enchentes, preserva e restaura a natureza e estimula práticas sustentáveis. (Leia o artigo completo aqui)

Vejo isso como um primeiro passo, um primeiro contato com um lindo futuro. Eu consigo enxergar várias piscinas públicas como as de Copenhague ao longo do Rio Pinheiros, Tietê, na Lagoa Rodrigo de Freitas e na Região Portuária do Rio, basta que a população se envolva, cobre, se manifeste. É possível.

Ciclovia na marginal do rio Pinheiros. Fonte da imagem

Mas o brasileiro é um povo banana

É muito difícil acreditar que isso possa acontecer no Brasil, mas o brasileiro nem sempre foi esse povo pacato que aceita tudo de cabeça baixa. Muitas revoltas e revoluções já fizeram parte da nossa história, quem estudou minimamente no segundo grau sabe disso. Governos foram derrubados pelas mãos do povo. Poderia citar vários exemplos, mas Getúlio chegou ao poder em 1930 porque a população não aguentava mais a Política do Café com Leite e a República Velha veio abaixo. Veja outras revoltas brazucas aqui

Então, porque não fazemos nada?

Segundo João Pedro Stédile, as sociedades vivem três momentos distintos: revoluções, adormecimento e preparação. Na palestra que assisti, Stédile disse que o Brasil está vivendo um momento de preparação, que em algum momento cansaremos de sermos tratados desta forma e iremos para as ruas reivindicar uma vida digna, como já foi feito várias vezes. É um movimento cíclico já observado diversas vezes ao longo da história. Mas até lá, cabe a nós iniciarmos esta mudança. Por isso:

Dica 2: Abrace uma causa que de alguma forma ajude a melhorar sua rua, sua comunidade, seu país

Veja gente

Enquanto a cidade ainda transforma suas praças em shoppings, diminuindo cidadãos a simples consumidores, enquanto ainda não resgatamos os espaços públicos para as pessoas, com parques, áreas verdes, ciclovias, boulevares e calçadas largas propícias para encontrarmos gente, podemos ampliar nossos círculos socias. Quanto maior o número de pessoas que gostem da mesma coisa que a gente tivermos ao redor, menos propícios à depressão seremos. Ter muitos amigos faz bem, são eles que nos chamam para sair, são eles que ouvem nossas reclamações, dão conselhos e tapas na cara nos momentos certos. Você não precisa conhecer seus vizinhos, com a tecnologia nossa zona de interesse não é mais física, mas somos seres sociais, e como tal, precisamos de interações.

Moramos numa metrópole com milhões de pessoas, existe massa crítica para criação de grupos com os mais diversos interesses. Se você gosta de pudim de leite, certamente existem pessoas que se reunem para conversar sobre pudim, comer pudim, trocar receitas, experimentar novas caldas. Quer um exemplo louco e real? Apreciadores de aviões que se reunem na cabeceira da pista do aeroporto de Congonhas para fotografar aviões (link).

Acredite, por mais bizarras que sejam suas peculiaridades, existe gente com os mesmos gostos se reunindo. Alguns exemplos de atividades que você pode procurar:
  • Dança de salão;
  • Crossfit;
  • Cursos diversos, como culinária e encadernação;
  • Meditação;
  • Clubes de leitura, colecionadores e swing;
  • Teatro;
  • Esportes: futebol, basquete, skate, bocha etc

Só não recomendo religião. Apesar de serem grupos que se ajudam e dão suporte aos seus membros, a religião é um atraso do qual a humanidade se livrará um dia, mas isso é assunto para outro texto.

Interações criam novas idéias

Todas as instituições ligadas a criação realizam brainstorms, que são reuniões com os envolvidos para  conversar e ter novas idéias. Algumas agências de publicidade, na sexta depois do expediente, fazem happy hours com cerveja e petiscos liberados para os funcionários. Nestes momentos grandes idéias surgem. Desta forma:


Dica 3: Veja gente, participe de grupos

E a saúde?

Cuide do seu corpo, da sua saúde. No último ano perdi 15 quilos e isso teve um impacto muito grande na minha relação comigo mesmo. A autoestima aumentou, o que ajuda na aproximação com outras pessoas. É fato, a aparência tem forte impacto na forma como somos avaliados.

Certa vez saí de uma entrevista para um estágio extremamente confiante, tinha sido tudo perfeito. Saindo da sala vi a candidata seguinte, uma loira enorme, linda, cheirosa. Eu não me contrataria se estivesse no lugar do entrevistador. Várias pesquisas já demostraram que os bonitos tem salários maiores e melhores posições na hierarquia das empresas, veja uma delas aqui.

Isso é resultado de fatores sociais e biológicos, e não temos que ficar irritados, precisamos aceitar que é assim que as coisas funcionam e jogar com estas regras. Um mínimo de preocupação com a aparência e saúde é importante, mas sem exageros, sem consumismo.

Pratique uma atividade física. O corpo produz endorfinas que te deixam feliz. Isso é verdade, acredite. Sem falar que assim também garantiremos uma velhice mais independente.

Dica 4: Cuide da sua saúde e do seu corpo

Poderia escrever um livro sobre o assunto, mas isso aqui é um blog e o texto já está longo de mais.

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