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sábado, 13 de outubro de 2012

Ritinha, Aroldo e as baratas

Ritinha, assim como todas as mulheres, detesta baratas. Não tem medo, tem nojo. A simples suspeita da existência de algum desses temíveis insetos no mesmo recinto é suficiente para deixá-la em estado de alerta.

Rinha namora Aroldo há seis anos. Aroldo é um bom rapaz e, apesar de ainda não ganhar o suficiente para dar a ela uma boa vida, seu futuro aponta para que um dia seja um marido provedor. O pai da moça gosta dele, mas casamento só quando puder oferecer uma casa confortável para a filha.

O namoro não vai muito bem e Aroldo acho que é por causa da sua total incapacidade em matar baratas. Em seis anos de namoro deixou escarpar todas com vida, não chegando nem perto com suas pisadas. Ele, coitado, tem problemas com ritmo. Desistiu das aulas de dança já que não conseguia acompanhar os movimentos da parceira e ainda pisava nos pés daquelas que não eram seu par. Nos shows, quando o músico pede para todos baterem palmas juntos, Aroldo é o único equivocado, por mais que se concentre suas palmas nunca acompanham as do resto do público. Por conta destes contratempos, Aroldo não quer mais ir a concertos musicais e casas de dança.

Ritinha sempre fica envergonhada quando, acompanhada dos amigos, o namorado tenta tirar a vida de uma barata, o que não é difícil de acontecer já que as ruas do Rio ficam cheias delas, principalmente no verão. Voltando de um bar, indo a um teatro, uma festa, estes rastejantes insetos sempre fazem questão de dar o ar da graça e Aroldo, coitado, é sempre o primeiro a se prontificar a dar cabo da praga, para risos de todos e vergonha de Ritinha. A situação piora quando outro homem do grupo, sem muita dificuldade, manda o bicho para o céu das baratas. Ou pior, quando uma das meninas realiza a tarefa.

Coitado do Aroldo, por algum motivo o movimento previsível destes bichos para ele não possui nenhuma lógica intrínseca, não pode ser coisa de Deus.


Depois de mais um jantar romântico no qual os dois ficaram calados a maior parte do tempo, o casal volta para casa caminhando. As mãos não andam mais juntas e os rostos apontam para baixo. Obviamente, surge uma barata. Aroldo, claro, tenta matá-la. Pisa aqui, pula acolá, aumenta a força das pisadas. A barata, sem muito esforço, dança por entre os pés do pobre rapaz. Ritinha, desolada, coloca a mão no rosto evitando assistir aquela cena deplorável. A barata, cansada de brincar, foge para um bueiro. Foi a gota d'água, chega! Ritinha não suporta mais o namoro. Resolve acabar com tudo ali mesmo. Os dois não estão mais namorando. Triste, Aroldo acompanha sua ex até a porta do prédio e se despedem com secos "tchaus", sem beijos, sem abraço, nem um aperto de mão.

Ele volta para casa desolado. Não podia acreditar no que tinha acabado de acontecer. Agora tinha certeza, era sua incapacidade em matar baratas que fez com que Ritinha terminasse o relacionamento. Chutando pedras pelo caminho, aparece novamente um destes pequenos e detestáveis seres. No mesmo local onde minutos antes acontecera a tragédia e, olhando bem, parece ser a mesma barata. Ela veio rir de mim, só pode ser, imaginou Aroldo.

Se sentindo inferior ao mais repugnante e odiado dos animais que habitam a terra, enche os pulmões de ar e com um ódio que nunca sentira antes atinge uma única e certeira pisada, matando a desgraçada. Inicialmente não acredita no que seus olhos mostraram, mas era verdade! Ao levantar o pé, lá está ela, imóvel. Imediatamente uma felicidade sem tamanho invade todo seu corpo e ele tem a necessidade de contar isso para Ritinha.

Aroldo volta correndo ao prédio da moça e toca o interfone. Depois de insistir um pouco, dizendo que o que tinha para contar era muito importante, Ritinha deixa ele entrar e espera-o na porta do apartamento. Ele chega esbaforido e, sorrindo, abre as mãos que estavam fechadas em concha na frente da moça, exibindo o corpo da barata, ainda com uma gosma verde saindo pelo abdome.  Ritinha não consegue segurar o vômito.

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