quinta-feira, 23 de julho de 2015

Sempre haverá quem queira fazer aborto, usar drogas, jogar e transar com prostitutas. Eu mesmo já usei todos esses serviços

Quem acha que policial dando tira na cara de criança na favela é um ato individual de um profissional despreparado está enganado. Esse tipo de ação faz parte de toda a estrutura policial que começa no Governador e passa pelas escolas de formação e pelos batalhões. É a política da instituição.

Impressionante esta entrevista dada pelo ex-policial Rodrigo Nogueira, autor do livro Como Nascem os Monstros.

(...) uma das instruções que os oficiais davam antes do efetivo sair pro policiamento era: "olha, vocês podem fazer o que quiserem, pega o pivete, bate, quebra o cassetete, dá porrada no flanelinha. Só não deixa ninguém filmar e nem tirar foto. O resto é com a gente. Cuidado em quem vocês vão bater, com o que vocês vão fazer e tchau e benção".

Na verdade essa cultura é alimentada por toda a sociedade, consequência de um moralismo babaca que nutre a rede criminosa:

Toda área de batalhão no Rio de Janeiro tem ponto de táxi, tem clínica de aborto, tem tráfico de drogas, tem oficina de desmanche, tem jogo do bicho. (...). Por que o policial não vai lá pra impedir? Porque ele tem determinação pra não ir.

Como Nascem os Monstros, de Rodrigo Nogueira

Boa parte desses problemas pode ser resolvido mudando a forma como compreendemos certos assuntos. Precisamos encarar o aborto do mesmo jeito que encaramos um procedimento de retirada de cisto. As prostitutas precisam ser tratadas como profissionais que exercem qualquer outra atividade na sociedade. As drogas precisam ser legalizadas imediatamente. Essas proibições contribuem para abastecer esse esquema de corrupção, já que sempre haverá quem queira fazer aborto, usar drogas, jogar e transar com prostitutas. Eu mesmo já usei todos esses serviços.


Uma maneira de fazer com que esses assuntos deixem de ser tabus e tratados a sussurros, escondidos e com vergonha é falar abertamente sobre eles.

Aborto

Quem não conhece alguém que já passou por um aborto? Podemos até não saber onde tem uma clínica, mas se algum dia precisarmos não demoraremos muito para descobrir. 

Outro dia li um relato de uma menina que foi realizar o procedimento. Enquanto aguardava numa sala, policiais apareceram na porta para uma batida. Depois de alguns momentos de tensão, tudo se acalmou e os atendimentos foram feitos. O arrego do mês não tinha sido pago, mas o problema foi rapidamente resolvido.

Além de ser uma questão de saúde pública, o aborto alimenta esquemas de corrupção entre policiais e clínicas.


Pornografia

Na Netflix tem um documentário chamado Hot Girls Wanted sobre pornografia na internet. Meninas que assim que completam 18 anos iniciam a carreira gravando vídeos para pequenas produtoras. Essa profissão atualmente é muito difícil de esconder da família pelo simples fato de que todo mundo procura por sexo na web. Sites com conteúdo pornográfico só perdem em acesso para gigantes como Facebook e Youtube.


Se todo mundo assiste, porque isso continua sendo tabu? Vamos falar abertamente sobre prostituição e pornografia e inserir completamente esses profissionais na sociedade, sem julgar o que eles fazem e considerando uma atividade comum. Assim, prostíbulos não ficarão mais à mercê de achaques.


Citei apenas o aborto e a pornografia, mas poderia dar exemplos semelhantes de como a proibição das drogas e do jogo contribuem com quadrilhas, extorsões e, em muitos casos, atentados contra a vida.

O mais curioso é que todos recorrem a esses expedientes e mesmo assim o tema sempre é tratado com vergonha, como se fosse algo errado. Não é. Falemos abertamente e que as Leis nos garantam acesso a esses serviços.

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