segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Comendo eu encontro deus

Uma das melhores coisas que fica depois do término de um relacionamento é o conhecimento gastronômico. Todo contato com o outro é enriquecedor, conhecemos novas músicas, novos livros, filmes, passamos a enxergar o mundo de um jeito um pouco diferente, mas são os novos sabores, pratos e temperos que mais aprecio nesse intercâmbio cultural.

Com uma namorada aprendi a gostar de salada, me apaixonei pelas feiras de rua e comi peixe cru. Com outra me encantei pela batata baroa, milho refogado com alho e cebola, sopa de fubá com um ovo cru que cozinha lentamente apenas com o calor daquele incrível caldo amarelo num cachepo. E o molho caseiro feito com tomates italianos quase estragados e temperado com folhas frescas de manjericão recém colhidas? Sou outra pessoa depois disso.

Fui levado, de mãos dadas, para comer aquele PF incrível na Travessa do Ouvidor. E o bolo com café de Ipanema, depois do galeto apimentado? E o divino e dourado líquido que sai da chopeira mais incrível que já vi, coberta com uma montanha de gelo que me deixou com olhos arregalados, tal qual uma criança em frente do seu grande ídolo?


A comida vai me transformando diariamente, e atualmente presto muita atenção a tudo que coloco na boca. Dedico bastante tempo preparando, comprando, pesquisando. Comer também é um ato político, quero que meu dinheiro vá para pequenos produtores familiares e não para multinacionais que vendem veneno disfarçado. Quero me alimentar de produtos sustentáveis e que não agridam o meio ambiente. Quero meu corpo saudável, pois assim diminuo minha necessidade de remédios.

Ateu, que não acredita em signos, premonições, no céu ou no inferno, a comida para mim se aproxima de uma religião, já que é através dela que me relaciono comigo mesmo, com o planeta e com outros seres humanos. É minha conexão com o universo, comendo eu encontro deus.

Faz-se necessária a mudança. Precisamos repensar a forma como comemos, saber de onde vem a comida e como é produzida. Felizmente um pequeno movimento vem surgindo neste sentido. A indústria já percebeu que tem gente substituindo o pacote cheio de sódio e gordura por alimentos frescos. Também cresce a pressão contra os fast foods e governos estão adotando medidas para proteger seus cidadãos. A obesidade se tornou um problema crônico em muitos países e a reação já começou.

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