domingo, 16 de janeiro de 2011

Rio Botequim 2011


A primeira edição do Rio Botequim foi lançada em 1998. Tenho todas, mas, obviamente, naquele ano o final da minha adolescência me deixava mais preocupado em beber nos bares do que ler sobre eles. Comprei tudo há uns dois anos, visitando sebos e pela internet.

O guia, que nas seis primeiras edições foi comandado por Paulo Thiago de Mello, ajudou a mudar o conceito destes estabelecimentos na cidade e no Brasil. Botequim era um termo pejorativo, agora bares moderninhos estampam a palavra em seus letreiros. Essa transformação é tão radical que está sendo criticada por aqueles que ajudaram a criar esse novo ambiente, como o Juarez Becoza, Millôr Fernandes, Jaguar e o próprio Paulo Thiago.

A Lapa é o local onde essa nova morfologia pode ser observada. Botequins tradicionais, guiados por portugueses ou nordestinos, com cozinha simples, barata e gostosa, local de encontro dos moradores da região, agora estão sendo substituídos por redes com preços pouco convidativos e que tentam se apropriar do ambiente de seus antecessores, contratando arquitetos famosos, utilizando muito azulejo hidráulico, peças de antiquários e televisões de LCD nos salões. Tudo isso para atrair um novo público que provavelmente não freqüentaria um pé-sujo, mas que se encantou com a atmosfera cult que esses estabelecimentos adquiriram. A Lapa está cada vez mais parecida com certas regiões de São Paulo, como já descreveu Paulo Thiago em outubro de 2009:

O boteco de São Paulo, por exemplo, em geral valoriza o serviço, o atendimento, a qualidade da comida, o ambiente, o banheiro limpo etc. Mas não é um lugar aonde se vai de sandália e sem camisa, bater papo, jogar porrinha, observar a vizinhança passando, a gostosa do bairro, a vizinha chata que reclama do barulho e da bagunça. Não é lugar onde se usa da verve jocosa para gozar os amigos, idealizar projetos, pequenos negócios e revoluções socialistas; criticar o governo, o patrão, a patroa e a sogra etc. Ou seja, o boteco paulistano de grife não valoriza a ambiência, a atmosfera, o ar cosmopolita da cidade. Ir ao boteco em São Paulo é um programa; é como ir ao cinema, ao teatro etc. É necessário se vestir adequadamente. Tem hora pra chegar e sair. No Rio, não é necessariamente assim, embora tenham proliferado nos últimos anos bares com essa característica paulistana, isto é, voltados para o serviço. Nos verdadeiros botequins cariocas, o que está em jogo é o cotidiano, é o botequim da esquina, que liga os fregueses à rua, ao bairro, à cidade. Um clube da esquina.

Voltando ao Rio Botequim, confesso que já estou começando achar sem graça, estou muito mais empolgado com o Guia Carioca de Gastronomia de Rua, que comentarei aqui em breve e que valoriza o texto, a história do ambulante e sua importância cultural na vida da cidade. 

O material gráfico da edição de 2011 segue o padrão do ano passado: texto em português e inglês, capa dura, papel couchê e todo colorido. A diagramação tenta misturar o tradicional com o moderno, e o resultado não é satisfatório. A descrição de cada botequim é muito curta, a letra é pequena e as imagens retratam apenas um pedaço de um prato ou um detalhe do estabelecimento. Muitas fotos recortadas numa mesma página, paisagens do Rio espalhadas e muito espaço mal aproveitado. O resultado é que o clima do bar não é retratado nem através do texto nem da imagem. Muito moderninho, parece que foi feito pelo designer do quadrinho abaixo:

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De diferente, só o fato de ter menos bares da Zona Sul e subúrbio com mais representantes, além dos botequins de outras cidades, como Niterói, Petrópolis e Búzios. Também está previsto para este ano o lançamento de um portal na internet, que permitirá interação com o público. Vamos ver.

Pelo menos dois da lista foram inaugurados ano passado e já entraram para o seleto rol dos melhores, como o Cine Botequim e o Imaculada. Na Ilha do Governador, os quatro da edição anterior: Rei do Bolinho de Bacalhau, Pontapé Beach, Petisqueira Martinho e Capitania dos Copos. Este ano vamos iniciar um movimento para colocar o Kareka's na publicação. Mas se não entrar, foda-se! O Guia perdeu completamente o sentido e sua relevância.

Particularmente, gosto mais de quando era feito pelo Paulo Thiago. Eram apenas 50 botequins e sempre trazia outros artigos relacionados, como um breve histórico da região e dicas de apreciação de um bom chope. As fotos tradicionais retratavam o dono do estabelecimento no balcão ou a fachada do local, sem falar na importância que o texto tinha, chegando a ocupar até três páginas inteiras de descrição,  histórico e curiosidades. O Rio Botequim do Paulo tentava resgatar outros aspectos destes queridos estabelecimentos, tais como

um espaço de sociabilidade, uma espécie de clube social da vizinhança, em que aspectos da cultura do bairro e da cidade são reiterados e vínculos de amizade e de identidade social são reforçados em conversas, jocosidades, disputas etc. Onde o pendura aparece como um importante regulador do ciclo de confiança entre fregueses e proprietários, muitas vezes mediado pelos garçons etc. Onde o botequim, como comércio de proximidade, atua como um importante elemento a estimular a vida na calçada e no bairro etc.

Guilherme Studart não tem este objetivo, ele apenas quer listar o maior número de botequins possível e esquece completamente aspectos que Paulo Thiago tentava resgatar. Para os apreciadores do botequim e sua importância cultural, sugiro a leitura do blog dele, o Pendura Essa, e mais especificamente a postagem com os trechos citado acima.

A grande quantidade de bares nas edições anteriores tem reduzido a qualidade do texto, resumido a chavões. Também não consigo entender essas fotos recortadas, que podem até ser interessantes e bonitas mas que não dizem nada!

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Enfim, sinto falta do Paulo Thiago (sou muito fã desse cara) no Guia. Para conhecer mais o Omar, dono do botequim que aparece nos quadrinhos, visite o blog do genial Ricardo Coimbra.

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