terça-feira, 20 de maio de 2014

Casa Grande e Senzala

Tive uma criação superprotetora. Apesar da rua na época da minha infância ter sido um lugar muito mais seguro do que é atualmente, poucas vezes tive permissão para viver o lado Capitães da Areia que cabe a toda criança. Não aprendi a jogar bola, não sei soltar pipa e perdia todas minhas bolinhas de gude.

Também não fui criado com o hábito de arrumar meu quarto ou cuidar das minhas roupas. Magicamente tudo aparecia limpo. Minha mãe até fazia parcas tentativas, mas era só reclamar e fazer cara feia que tudo se resolvia e a mágica continuava acontecendo. Obviamente ela fez isso pensando no melhor para mim, conforto e segurança, mas crescer em um ambiente no qual eu não precisava cuidar dessas tarefas me fez um adulto perdulário nesse quesito.

Agora, morando sozinho, minha casa é uma zona. Algumas vezes contratei uma faxineira, mas pagar R$120 numa diária pesa no orçamento. Resolvi cuidar eu mesmo da limpeza e, obviamente, não deu muito certo. Vez por outra dou uma varrida e passo um pano de qualquer jeito, mas este é um habito que pretendo mudar e o motivo apenas tangencia a economia financeira.

No meu lar as atividades eram muito bem separadas por gênero. Longe de mim dizer que se tratava de um ambiente machista, era apenas a configuração familiar que vigorou durante muito tempo. A vida atual permite (e exige) novos modelos, e eu não me encaixo nesse arquétipo mais "tradicional". Hoje em dia é comum que tanto o homem quanto a mulher trabalhem fora, e não é justo achar que a limpeza da casa é uma tarefa exclusivamente feminina. Também não se trata de ajudar a parceira, a questão é que eu quero cuidar da minha parte nos afazeres domésticos, já que quando se diz "ajudar" dá a impressão de que um dos membros é isento de responsabilidade.


Quero que meus filhos cresçam num ambiente mais equânime nas questões de gênero, e contribuo com este pensamento quando assumo minha parte do trabalho. Vivo me policiando para não emanar opiniões machistas, mas mesmo assim vez por outra falo alguma barbaridade. Minha namorada, antropóloga e com um olhar muito aguçado para o assunto, me alerta toda vez que me posiciono dessa forma e vou corrigindo meu curso.

A terceira razão tem a ver com o excelente texto que Daniel Duclos escreveu em 2009, Da relação direta entre ter de limpar seu banheiro você mesmo e poder abrir sem medo um Mac Book no ônibus, que conta um pouco sobre como funciona a vida na Holanda. Fazendo um pequeno resumo, lá a diferença de salário entre um médico e um porteiro é muito pequena, por isso contratar um alguém para limpar sua casa não é um hábito comum. É normal, independente da profissão e classe social, as pessoas limparem suas próprias casas, e esse simples detalhe tem um impacto muito grande na saúde social do país, inclusive no baixíssimo índice de violência.

Outro dia, assistindo o Discovery, vi um programa que mostrava a construção do maior navio cargueiro do mundo na Coréia. O engenheiro responsável era norueguês, e mesmo depois de um dia exaustivo de trabalho, em casa, ele preparou a própria refeição. Aqui no Brasil, alguém com este cargo certamente estaria cercado de empregados que cozinhariam para ele.

Mais um exemplo: semana passada chegou lá em casa um alemão que vai ficar três meses de férias por aqui. Uma das primeiras coisas que ele fez foi uma faxina. Limpou banheiro, sala, cozinha, tudo. Isso faz parte da rotina dele e de muitas outras pessoas que vivem em países com renda que não são criminosamente díspares como aqui.

Ter quarto de empregada é um costume brasileiro, explicado por Gilberto Freyre em Casa Grande e Senzala. Obviamente não estou combatendo a desigualdade social ao limpar meu banheiro, mas isso me faz lembrar que em sociedades mais justas essa prática é vista com naturalidade e me ajuda a romper um pouco com a herança escravocrata que ainda insiste em nos perseguir. Muitos dos conflitos que vemos atualmente tem origem na abissal diferença de renda entre a população, e vivemos em um dos países campeões nesse quesito.

Escrevi bobagem?

PS: esse artigo do site Geledes explica de forma muito mais clara o que eu quis dizer. Vale a leitura:
A contratação de trabalhadores domésticos em larga escala é consequência do atraso social de um país. O fato de que existem pessoas que ganham o suficiente para que outra pessoa faça o serviço que ela própria poderia fazer demonstra o abismo da desigualdade social de uma nação.

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