quarta-feira, 18 de março de 2015

Indecente é a violência no trânsito

Muita gente não entendeu porque no Rio e em São Paulo, além de muitas outras cidades do mundo, um grupo de ciclistas se reúne todo mês de março para pedalar sem roupa pela cidade. Para os moralistas, é pouca vergonha, um protesto sem sentido que tem como único objetivo desmoralizar e escandalizar a família tradicional e fazer chacota com gente de bem. Até amigos mais próximos não entenderam, então cabe aqui uma pequena explicação.

A World Naked Bike Ride, conhecida no Brasil como Pedalada ou Bicicletada Pelada, acontece desde 2004 e a cada ano mais cidades se juntam ao protesto. Esta foi a segunda edição do Rio. De forma animada, com música, gritos de guerra, cartazes e pintura corporal, ativistas que utilizam transportes não poluentes, como a bicicletas, skates e patins, chamam atenção para algumas questões:

Eu com minha barcicleta: isopor com Heineken gelada e sistema de som com microfone sem fio

Não somos invisíveis

Parece que quando estamos pedalando somos invisíveis, já que muitos motoristas agem como se não existíssemos. Mas quando estamos sem roupa somos facilmente notados. Será que a única forma de sermos percebidos é saindo pelados?

Indecente é a violência

Outro dia alguém escreveu sobre o último capítulo da novela: "ainda bem que não teve beijo gay, só filho tentando matar o pai e a irmã". Tá tudo muito errado, indecente é a violência que toma conta desta sociedade e não demostrações de afeto e corpos nus. Indecente é motorista bêbado ser solto depois de atropelar e matar.

Temos que ter vergonha do alto índice de assassinatos no trânsito

Deveríamos ter vergonha do sangue que tinge de rubro o asfalto toda vez que um pedestre ou ciclista é atropelado. É esse tipo de coisa que deve nos fazer sentir vergonha.

Somos frágeis

Não temos airbag, nem cinto de segurança e pára-choque. Tampouco uma tonelada de aço em volta dos nossos corpos para nos proteger. Somos apenas nós e a rua. A Bicicletada Pelada também tem esse objetivo, mostrar o quanto somos frágeis quando pedalamos.

Coloquei uma caixa de som na minha bike e com o microfone fui explicando tudo isso às pessoas, principalmente quando parávamos nos sinais e passávamos em frente aos bares cheios. Tivemos alguma cobertura da imprensa que citou nossos objetivos. É uma ação simbólica, que estimula a reflexão sobre o trânsito, por isso foi vitoriosa. 

No final, todos tomamos banho no Leme, que estava com água limpa, quente e sem ondas, numa celebração à liberdade.

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