sábado, 26 de março de 2011

Macumba boa é macumba longe

No sábado de carnaval, dia do desfile do Bola Preta, lá fui eu com minha digníssimas para um centro em Santra Cruz participar da gira do Zé Pilintra. A família de consideração dela faz parte deste centro de umbanda, que também mistura muitas outras crenças, como o cristianismo e esoterismo.

Na sala onde são realizados os cultos existem, além das estátuas dos orixás, caboclos e demais entidades, imagens de Jesus Cristo e santos católicos. Uma pirâmide, símbolo exotérico, fica pendurada no teto, e quadros de diversos mestres de outras religiões ficam expostos nas paredes. Além disso, o altar possui pequenos tótens incas, objetos indígenas e itens de crenças de outros países.

Uma coisa que reparei é que, ao contrário da origem africana da umbanda, o centro é freqüentado quase que exclusivamente por pessoas brancas de classe média e média-alta da Zona Sul carioca. São advogados, médicos, profissionais liberais diversos com bons salários e alto nível educacional. Os negros de baixa renda estão presentes, mas não são mais que cinco porcento do total. Talvez algum atropólogo possa explicar porque houve essa mudança tão radical no perfil dos adeptos das religiões africanas, pelo menos por aqui.

O lugar é muito bonito, um sítio que durante a semana oferece diversos tratamentos espirituais comuns em instituições como essa.

A gira

A gira é uma cerimônia na qual os espíritos baixam nos médiuns do terreiro. Na umbanda e candomblé existem diversas falanges, que são uma espécie de grupo que reúne entidades com características semelhantes. São várias as falanges: Pretos Velhos, Caboclos, Exus, Crianças (ou Erês), Boiadeiros, Ciganas, Orientais, Mestres de Cura, Zé Pilintra entre outros.

Neste centro a gira do Zé acontece apenas no sábado de carnaval. A cerimônia é muito bonita, mas por falta de conhecimento muita gente acredita se tratar de um culto assustador, com sacrifício de animais e outros ritos desta natureza. Isso até acontece em alguns lugares, mas não lá. O centro é politicamente correto, com cerveja sem álcool, cigarros no lugar dos charutos e todo os materiais utilizados durante os trabalhos nas praias e cachoeiras são recolhidos.

Houve uma inovação na gira deste ano: o Boteco do Zé. Para a consulta, diversas mesas de bares foram dispostas em volta do templo, nas quais era possível pedir petiscos como batatas calabresas, linqüiça frita e bolinho de bacalhau, além de cerveja (sem álcool).

A consulta é uma conversa com a entidade, na qual ela te dá conselhos e orientações. Já fiz uma com um caboclo em um centro da Ilha, conforme já contei nesta postagem.

Já escrevi aqui muitas vezes que sou ateu até a raiz do cabelo, mas desta vez, ao contrário do que tenho feito nas minhas outras experiências religiosas, não vou citar os momentos nos quais identifiquei incoerências entre a prática e o discurso. 

Abaixo algumas fotos.


Maria Padilha comandando a festa do Zé Pilintra

Detalhe do altar

Maria Padilha

2 comentários:

  1. Adorei a forma como descreveu a religião e, nesse caso específico, o respeito e a seriedade do culto. Vou compartilhar! Abraços.

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